Diálogo
"Though nothing can bring back the hour of splendour in the grass, Of glory in the flower, We will grieve not, Rather find strength in what remains behind" William Woodsworth "Embora nada possa trazer de volta a hora do esplendor na erva, da glória na flor, não nos lamentaremos, mas encontraremos força naquilo que permanece." No dia em que terminei as minhas funções de Presidente do Tribunal Constitucional e me aposentei, colegas meus ofereceram-me uma prenda inusitada: o excerto de um poema.
Poema esse de que apenas conhecia esse mesmo excerto (que traduzi o mais literalmente que pude), por ter sido citado por Natalie Wood, protagonista do magnífico filme de Elia Kazan intitulado precisamente Splendour in the grass .
No seu poema Ode: Intimations of Immortality from Recollections of Early Childhood , o autor aborda a transição da infância para a idade adulta, com a perda da inocência e do encantamento que caracterizam aquela.
No meu caso, suponho que os meus colegas terão extrapolado para a transição da vida ativa para a reforma.
Os versos, que tenho emoldurados na minha secretária, atraíram, uma vez mais, a minha atenção quando acabei de ler o magnífico texto do meu colega e amigo Luís Filipe Castro Mendes, também colunista do DN, sobre o futebolista Ronaldo.
Aí se comentava benevolamente o comportamento deste, a teimosia em não querer admitir que o tempo passa por nós e vai desgastando as nossas capacidades e qualidades, em defender ciosamente a sua aura de “génio” do futebol, recusando aceitar que já não é o mesmo de há vinte anos atrás, enfim, perseguindo obcessivamente o milésimo golo.
Mas o melhor do texto é a compreensão pelas fraquezas humanas com que o autor trata esta espécie de “desespero”, mostrando que todos nós, incluindo ele próprio, passámos, passamos ou iremos passar pelo mesmo.
No passado dia 14 o Luís Filipe aprofundou a sua reflexão, estendendo-a aos conteúdos e às possíveis razões da sua escrita neste espaço de opinião, declarando “que não sabe bem o que anda aqui a fazer”.
E eu cogitei: se um poeta publicado, considerado, reconhecido e premiado, confessa humildemente que não sabe o que anda aqui a fazer, que direi eu, que apenas escrevinhei livros de direito e textos jurídicos, quase todos num tom maçadoramente pedagógico? Por que raio insisto em escrever sobre tudo e sobre nada? Qual o meu propósito? Não é para apoiar o meu ensino, porque já não o tenho.
Também não será, propriamente, vaidade, porque não tenho a pretensão de ter uma escrita de qualidade, nem me orgulho do que escrevo.
Não tendo encontrado melhor razão - ou pretexto -, resta-me concluir que se trata de fazer uma espécie de prova de vida.
Escrevo para me convencer que ainda posso dizer alguma coisa de jeito a um ou outro leitor mais compassivo.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.