O Paradoxo da Prosperidade: O sucesso que Portugal teima em desprezar
Há um traço sociológico fascinante e perverso neste retângulo plantado à beira-mar: a nossa absoluta e irremediável incapacidade de lidar com as boas notícias.
Quando os agregados macroeconómicos teimam em colocar Portugal a crescer sistematicamente acima da média da anémica zona euro, exibindo um controlo da dívida pública e uma disciplina orçamental que fariam corar de inveja um ministro das Finanças germânico da era Schäuble, o que faz o país real? Mergulha numa catatonia coletiva, entretida de forma doentia pelas futilidades escabrosas da agenda futebolística.
Passamos centenas de horas de emissão, com painéis de comentadores de semblante grave, a escrutinar a tática, o fora de jogo ao milímetro e agora o mais recente amuo de um ponta de lança milionário.
O sucesso, em Portugal, é um embaraço.
Não tem espaço de antena, não gera partilhas nas redes, não alimenta a nossa profunda vocação trágica.
E, no entanto, o sucesso existe, ainda que seja filho de pais que a sociedade portuguesa, na sua imensa hipocrisia, se recusa a assumir.
Se olharmos para as contas certas, o novo Santo Graal da política lusa, de onde brotou esta súbita e militante conversão de todo o arco governativo à ortodoxia orçamental? Terá sido fruto de uma iluminação académica ou de uma profunda reflexão estrutural dos políticos nacionais? Teria sido excelente, mas o nosso maior obreiro da consolidação fiscal, numa opinião muito própria e assaz polémica, tem nome e apelido: o Engenheiro José Sócrates.
Ao conduzir o país a uma bancarrota tão espetacular, tão total, sistémica e humilhante, o antigo primeiro-ministro operou uma verdadeira lobotomia pedagógica na classe política portuguesa.
O pânico de um novo resgate, a humilhação da troika e a memória do abismo castraram o ímpeto despesista nacional de tal forma que, hoje, até as alas mais líricas e sonhadoras do socialismo abraçam cativações, tetos de despesa e superavits como se fossem dogmas de fé inquestionáveis.
O nosso sucesso financeiro é, com tremenda ironia, o subproduto direto do nosso maior desastre.
É o instinto de sobrevivência disfarçado de virtude económica.
O segundo pilar desta retoma é, simultaneamente, o saco de pancada favorito da nossa intelligentsia: o turismo.
Se analisarmos a imprensa publicada e os noticiários das oito, o turista é a encarnação do mal absoluto.
A nossa elite, do alto da sua superioridade moral e invariavelmente sentada a beber café de especialidade em bairros gentrificados, chora a “descaracterização” das cidades e destila ódio ao alojamento local.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.