Mock Fest: riso, conversa séria e a redenção de Chris D'Elia
Já passam dez minutos das 22h, mas as luzes do Palco Worten ainda estão acesas enquanto os membros do público cochicham entre si. De tempos a tempos, ouve-se uma recomendação na voz de Chris D’Elia, que aconselha o público a comprar merch no sítio X, aceder ao site Y e não filmar o espectáculo! Pelo meio, ouvem-se músicas de Kanye West .
“Estou meio conflicted ”, admite Vickie Stewart, que esteve em dúvida sobre ir assistir ao espectáculo. A jovem brasileira, que vive em Portugal há dez anos, reconhece que acompanha e gosta da comédia de Chris D’Elia, mas que não sabe muito bem como lidar com situações que originam um dilema moral e a necessidade de fazer uma escolha em relação à separação da obra e do artista.
No fim, decidiu comprar um bilhete, afinal “quem não quer vir não vem”. Também ela assistiu ao penúltimo especial de D’Elia, que o humorista lançou no YouTube em março de 2025 — intitulado Grow or Die . “Ele emocionou-se e tudo”, recorda Vickie.
A variedade de oferta disponível e a sucessão quase ininterrupta de eventos desde as 17h30, vai esgotando a energia de que o público dispõe para o número final do Worten Mock Fest — que geralmente é o mais antecipado. Chris D’Elia, numa “estreia absoluta em Portugal”, acumula mais de 2,4 milhões de seguidores no Instagram e tem três solos de stand-up comedy disponíveis na Netflix — ambos indicadores de uma carreira sólida e plena de sucesso, não fossem os percalços no caminho do comediante de 46 anos.
Tudo começou quando, em 2020, uma jovem norte-americana divulgou as mensagens que trocou com D’Elia quando ainda era menor de idade, nas redes sociais. Durante o período de tempo em que se correspondeu com o humorista, Julia Holtsman tinha 17 anos, o que não impediu que — de acordo com a jovem — ele adotasse uma conduta sexual desadequada. As capturas de ecrã (que já não estão disponíveis online) deram início a uma avalanche de denúncias e sucessivas acusações de exploração sexual de menores e pornografia infantil — alguma das quais deram origens a processos judiciais.
Em fevereiro de 2021, o comediante publicou um vídeo em que admitiu ter comportamentos sexualmente desviantes e um erotismo compulsivo, pelos quais pediu desculpa. Apesar disso, negou sempre todas as acusações que sustentavam processos criminais, os quais foram sucessivamente arquivados.
Em maio de 2023, a revista Rolling Stone publicou o testemunho de dez mulheres , que acusaram o humorista de conduta sexual desadequada, sendo que alguns dos relatos também davam conta de agressões perpetradas quando as vítimas ainda eram menores de idade. “Várias mulheres alegam que D’Elia se aproveitou do estatuto quase divino que tinha junto das suas fãs para obter gratificações sexuais, oferecendo bilhetes àquelas que estivessem dispostas a prestar favores sexuais em troca de lugares para os seus espectáculos.”
As sucessivas polémicas em que esteve envolvido levaram a que o humorista perdesse várias oportunidades, entre as quais a participação no filme Army of the Dead da Netflix, a que se somou o cancelamento dos projetos de stand-up comedy que a plataforma de streaming já lhe havia encomendado.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.