Joe Salgado virou à direita no 11 de setembro e sobreviveu
Um carro dos bombeiros, uma ambulância e um veículo de socorro ajudam a compor um solene triângulo, palco da homenagem da comunidade portuguesa às vítimas dos ataques de 11 de setembro. Ao final da tarde de sexta-feira, ouve-se português na confluência da Ferry Street com a Wilson Avenue, em Newark, New Jersey. Manhattan fica a meia-hora. Estes portugueses, que hoje colocam a bandeira nacional a meia-haste, também têm uma história para contar.
É o caso de Joe Salgado, um dos poucos sobreviventes portugueses do 11 de setembro. Trabalhava no 47.º andar da Torre Norte e conseguiu escapar do edifício com vida. Tinha chegado cedo ao trabalho no banco First Union. “Era um dia lindo. Lembro-me tão bem”, afirmou à Rádio Observador, entrevistado na emissão especial desta sexta-feira à tarde em Nova Iorque. Aos 65 anos, Joe Salgado recorda vividamente essa terça-feira, dia 11 de setembro de 2001. “Chegava cedo ao banco, entre as 7h30 e as 8h00. Dependia do trânsito, mas era um dos managers e, como manager, queria sempre chegar antes do pessoal”. Nesse dia fatídico não foi diferente.
Tinha começado uma reunião há poucos minutos quando sentiu um estrondo que fez abalar a torre. Do piso onde estavam, não se aperceberam logo do que tinha acontecido. Teria sido um embate na torre, mas pensaram num pequeno avião ou helicóptero. Mesmo assim decidiram começar a descer as escadas. Foi quando chegaram ao 22.º andar que ouviram muito barulho. Foi o momento em que o segundo avião se despenhou contra a torre sul.
Quando chegaram ao piso zero havia mais do que uma saída. Quatro colegas decidiram virar à esquerda. Joe e mais três funcionários viraram à direita. “Ainda hoje não sei porquê. Não sei por que virei à direita”, admite. Mas essa decisão salvou-lhe a vida . Os quatro colegas que foram pelo outro lado já não conseguiram sair.
Joe Salgado cruzou a rua e olhou para as torres. A segunda começou a ruir. “Começámos a correr pela rua abaixo o mais rápido possível. Não conseguíamos ver nada, tal era o pó nos olhos. Um bombeiro deu-nos uma garrafa de água, limpámos a cara e fomos a pé até Brooklyn”. Só mais tarde encontrou uma cabine telefónica e ligou para casa — para dizer que estava vivo. Durante todo esse tempo não faziam ideia se Joe tinha escapado. “Quando chegámos a Staten Island, houve uma carrinha que nos viu e parou. Viu que estávamos cobertos de pó e levou-nos a New Jersey”. Por essa altura, o mundo já estava em choque. Joe Salgado ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido e só com a família, e com o que ia passando nas rádios e nas televisões, teve a verdadeira noção da tragédia a que tinha conseguido escapar: “Tive uma sensação de gratidão”.
Joe reúne-se todos os anos no dia 11 de setembro com os colegas que estavam juntos naquele dia no escritório. Esteve várias vezes no Ground Zero e assinalou lá o 10.º e o 20.º aniversário, mas não este ano. “Já faleceram 13 amigos. Ainda é um grande choque para todos”, justifica.
Na Ferry Street, a meia-hora de comboio do World Trade Center, o português é uma das línguas mais faladas. Basta olhar para as montras e para as caras. Estamos num pequeno Portugal do outro lado do Rio Hudson.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.