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"Nós, Sozinhas" e o aborto: como o país julgou as mulheres

Observador ·
"Nós, Sozinhas" e o aborto: como o país julgou as mulheres

“Deitar a barriga abaixo. Abortar. Desmanchar. Resolver. Cytotec. Raspagem. Aspiração. Erva das sete sangrias. Talos de couve. Pés de salsa. Agulhas de tricô. Cabide de arame.” Há muitas formas de o dizer, de o fazer. “Enfermeiras. Parteiras. Médicos. Curiosas. Abortadeiras. Clínicas. Consultórios. Mesa da cozinha. Barraco nas traseiras.” Há sempre alguém que conhece alguém. Em palco, Sara Barros Leitão revisita a história das mulheres que foram levadas a tribunal por tomarem decisões sobre o seu próprio corpo.

Em Nós, Sozinhas , peça com estreia marcada no Theatro Circo, em Braga, esta sexta-feira, 19 de setembro, a atriz, encenadora e dramaturga volta ao formato de monólogo após Teoria das Três Idades (2018) e Monólogo de uma mulher chamada Maria com a sua patroa (2021) . Desta vez, escava o arquivo da memória coletiva e pessoal para resgatar a longa caminhada até à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) em Portugal, desfiando a solidariedade feminina e as redes clandestinas que sustentaram gerações de mulheres.

A cenografia impõe-se pela estranheza: o palco está transformado num campo de ténis. Remete para um julgamento que aconteceu na Maia, em 2001, no qual 17 mulheres foram sentadas no banco dos réus, arriscando até três anos de prisão. Uma denúncia anónima levou a Polícia Judiciária a arrendar uma casa em frente à residência de uma enfermeira parteira, em Pedrouços, vigiando durante um ano quem entrava e saía. A partir de agendas apreendidas, a acusação montou um megaprocesso com 43 arguidos e centenas de testemunhas. Só que devido à dimensão inédita do caso, o tribunal teve de se mudar provisoriamente para o Complexo de Ténis da Maia. Trouxeram-se cadeiras de plástico, montaram-se mesas desdobráveis cobertas com panos pretos drapeados para julgar empregadas domésticas, costureiras e cabeleireiras dos bairros sociais do Porto — mulheres que por vezes penhoravam o seu ouro ou pagavam o procedimento em prestações.

“Esta é uma história que parece uma ficção, parece uma distopia, mas não é”, ouvimos . Sara Barros Leitão conhece o cenário, as linhas do campo, e não apenas pelos registos judiciais. Em 2001, com 11 anos, era aluna na EB 2,3 da Maia, situada precisamente em frente ao complexo desportivo onde também praticava ténis. “Aborto: o crime está na lei” , escutava-se na sala de aula, vindo da rua. “Lembro-me perfeitamente dos gritos das manifestações, de irmos para a janela tentar perceber o que se passava. De sair da escola e assistir àquilo. E depois de chegar a casa e ninguém falar sobre o assunto”, recorda a encenadora ao Observador. Foi a primeira vez que ouviu a palavra “aborto”.

Anos mais tarde, a 11 de fevereiro de 2007, o país ia às urnas para o segundo referendo nacional sobre a matéria. Sara tinha já 17 anos e assume que a sua consciência social ainda estava em construção. “Se tivesse tido idade para votar, teria votado ‘não’. É fruto também do que era a educação que tinha e a perceção familiar que tinha na altura.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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