Vitória tem 13 anos vive com Covid Longa e quer ir à escola sem rótulos
Cansaço logo às sete da manhã antes mesmo de chegar à escola, a impressão de que a gripe agora "nunca passa" e o medo do rótulo de preguiçosa é, desde 2021, o dia a dia de Vitória, 13 anos.
A frequentar o 8.º ano na EB Vallis Longus de Valongo, no distrito do Porto, Vitória Soares, tem diagnóstico de Covid Longa desde março, mas antes passou por um "calvário" de médicos, consultas e idas à urgência.
Teve Covid a primeira vez em dezembro de 2020 e depois em maio de 2021.
À Lusa, a mãe, Joana Ferraz, descreveu crises muito fortes, febres altíssimas, dores musculares exacerbadas, falta de força, dores de cabeça, de garganta, tosse severa e depois mais uma ou duas vezes Covid ligeiro, "só" com perda de olfato e dores musculares, "mas com uma fadiga cada vez mais intensa".
"E passou a adoecer facilmente.
Ia com ela aos médicos, ao centro de saúde, ao hospital e voltava para casa com ben-u-ron ou brufen [medicamentos habitualmente relacionados a viroses] e voltava para casa à espera que passasse", contou Joana Ferraz.
Até que, através da Aliança Millions Missing (AMM), associação que representa doentes com síndromes pós-virais, "correu atrás" de mais informação sobre Covid Longa, doença para a qual não existe ainda uma definição consensual e que a Organização Mundial da Saúde descreve como "condição pós-covid".
"Um recente inquérito europeu mostrou que, em média, até assentarem, há doentes que visitam cinco médicos antes de encontrarem alguém que compreenda minimamente a sua situação, até terem um diagnóstico e até terem uma pessoa que as compreenda e que as ajude na recuperação", contou à Lusa o reumatologista Jaime Branco, professor catedrático jubilado da Universidade Nova de Lisboa.
Pelas contas da mãe, o percurso da Vitoria "é capaz de ultrapassar os 10 médicos", muitas consultas de imunologia, reumatologia, alergologia, clínica geral, dentro e fora do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
"É sempre uma grande dificuldade perceberem aquilo que a Vitória tem e as suas necessidades (…).
Uma professora chegou a chamar-me à escola e a dizer que se ela não deixasse de faltar, apesar de ter as justificações dadas por médicos, que tinha que alertar a CPCJ [Comissões de Proteção de Crianças e Jovens]", contou a mãe.
Estima-se que em Portugal há pelo menos 100 mil pessoas com Covid Longa, um valor explicado à Lusa pelo pneumologista João Carlos Winck com base no número de casos de Covid-19 registados no país, uma vez que sobre esta doença não há nenhum estudo epidemiológico.
Já, remetendo para o estudo de 2023, a AMM alerta que foi identificada Covid Longa em 17,6% das crianças e adolescentes estudados.
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