Como o poder pode alterar a capacidade de julgamento
Por vezes somos confrontados com líderes políticos que, não obstante os escândalos e as contrariedades, permanecem aparentemente inabaláveis nos cargos que ocupam. Como se compreende este fenómeno e como se explica a degradação da sua capacidade de julgamento?
Em certas pessoas, o exercício prolongado de um grande poder, sobretudo quando acompanhado por sucesso e poucos mecanismos de contenção, pode provocar uma alteração adquirida da personalidade e da capacidade de decisão. A aplicação de conceitos psiquiátricos a figuras públicas deve ser feita com cautela, para não se tornar num instrumento de combate político. Mas o tema não é novo e já foi objeto de estudo.
Num artigo publicado na revista Brain , David Owen, médico e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, juntamente com o psiquiatra Jonathan Davidson, propuseram a existência de uma síndrome, associada ao exercício do poder, designada por “síndrome de húbris” ( Hubris syndrome ). Segundo estes autores, este quadro, que partilha elementos com o narcisismo patológico e algumas perturbações da personalidade, corresponde a um padrão de comportamento que surge após a exposição a um cargo de poder por um período variável entre um e nove anos.
Os autores identificam várias manifestações que podem surgir e acentuar-se ao longo do exercício do poder. Observa-se uma predisposição para ver o mundo como um lugar para a autoglorificação através da posição que ocupa, uma preocupação exagerada com a imagem e a adoção de um discurso cada vez mais messiânico acerca daquilo que se está a fazer. Pode surgir a utilização recorrente do “nós” majestático, bem como uma identificação entre as suas próprias ideias e interesses e os do Estado, como se fossem uma só entidade. A isto associa-se um excesso de autoconfiança com desdém perante os conselhos ou críticas dos outros, assumindo apenas a responsabilidade perante um tribunal superior — sendo somente julgado pela História ou por Deus —, ao mesmo tempo que reitera a crença de que, nesse julgamento, lhe será dada razão.
Um bom líder pode apresentar traços particularmente úteis no exercício das suas funções: forte confiança em si próprio, capacidade para assumir riscos e tomar decisões rápidas, amplitude de visão, carisma e capacidade de inspirar e convencer são alguns exemplos. O problema surge quando algumas destas qualidades, inicialmente úteis à liderança, se transformam em limitações. Por exemplo, quando a autoconfiança se converte na certeza da própria infalibilidade, a rapidez de decisão em impulsividade, a visão política se transforma num messianismo, a resistência à crítica se revela como incapacidade para ouvir.
A partir desta descrição é possível compreender o mecanismo psicológico implícito. Em primeiro lugar, o indivíduo alcança uma posição de grande poder. Trabalha afincadamente e obtém sucessos repetidos. Estes sucessos aumentam a sua autoconfiança, reforçando a certeza no próprio julgamento. A partir daqui começa a atribuir estas vitórias essencialmente às suas próprias capacidades. Simultaneamente torna-se menos recetivo à crítica, podendo com o tempo ameaçar, perseguir os seus opositores.
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