Sobreviventes de AVC encontram "segunda família" em Grupo de Ajuda Mútua
Sobreviventes de AVC e cuidadores encontram no Grupo de Ajuda Mútua (GAM) de Abrantes uma "segunda família" para partilhar dificuldades e reconstruir rotinas, numa cidade que no sábado recebe cerca de 420 participantes num encontro nacional.
"Mais do que um grupo de ajuda mútua, é família, é união, é convívio", disse à Lusa Anabela Santos, 53 anos, fundadora e coordenadora do GAM de Abrantes, criado em janeiro de 2025 e que se reúne mensalmente na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários.
Abrantes, no distrito de Santarém, recebe no sábado o encontro "10 anos juntos -- Sobreviventes e Portugal AVC", que assinala uma década da associação Portugal AVC e fechou as inscrições com cerca de 420 participantes, provenientes de várias regiões do continente, dos Açores e da Madeira.
Anabela Santos sofreu um AVC isquémico em 2020 e recordou o regresso a casa com dificuldades na perna e braço esquerdos e na fala, sentindo-se "completamente perdida" e perante uma vida que teria de "recomeçar do zero".
A procura de apoio levou-a a contactar a Portugal AVC e, depois, a participar num GAM em Portalegre. "Senti-me em casa, lá falávamos todos a mesma linguagem", afirmou, explicando que demorou quase dois anos a preparar a criação do grupo de Abrantes para ajudar outros sobreviventes a não viverem isolados.
As sequelas continuam presentes, desde a perda de motricidade fina e força na mão e braço esquerdos a uma ligeira afasia, dificuldades de concentração e alterações emocionais, mas Anabela disse que essa "bagagem" serve hoje para ajudar outros.
Também Mário Alves, 57 anos, de Casais de Revelhos, sofreu um AVC no final de 2020 e compara o que se seguiu a uma atualização do sistema operativo de um telemóvel.
"Fiz um `reset` à máquina e recomecei a minha vida com uma nova atitude", afirmou, descreveu, dizendo sentir-se hoje numa "versão 2.0" e descrevendo o GAM de Abrantes como uma "segunda família", onde pode partilhar os dias menos bons e encontrar estratégias para lidar com as consequências da doença.
Ana Filipa Pires, 45 anos, do Entroncamento, sofreu um AVC em 2023 e identifica a perda de "liberdade e independência" como uma das principais mudanças, a par da dependência de terceiros, do impacto emocional e da incapacidade para trabalhar.
Para a sobrevivente, o convívio com quem passou pela mesma experiência tem um valor particular. "Quem está connosco tenta entender, mas não é a mesma coisa", afirmou, defendendo que é necessário aceitar que na recuperação existem "dias bons e outros menos bons" e não desistir.
António Rego, 62 anos, do Tramagal, sofreu um AVC em agosto de 2024 e disse que o contacto com outros sobreviventes é "uma terapia emocional muito eficaz", depois de ter sentido mudanças nas atividades diárias, lazer e vida profissional.
Mas o impacto do AVC estende-se também a quem cuida. Fernanda Diogo, 68 anos, de Alferrarede, acompanha o marido desde 2006, depois de dois AVC, e resume a mudança numa frase: "Deixei de viver no eu e passei a viver pelos dois".
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