Esquerda e islamismo
O 11 de Setembro de 2001 apanhou-me de férias numa praia, perto de Tavira. Havia sol, mar, tranquilidade e optimismo num mundo que eu julgava decente. Era um tempo ingénuo, levava-se para a praia a toalha e o protector solar, não um manual da jihad para perceber as notícias.
Recordo-me bem desse dia e das discussões que se seguiram. Até então, o Islão não estava sequer no meu horizonte de interesse ou preocupação. Mas nesse dia entrou pelos olhos dentro, com aviões civis transformados em mísseis, arranha-céus reduzidos a poeira e milhares de pessoas imoladas por causa de um argumento teológico apresentado de forma aterradora.
Surpreendeu-me que dezanove homens “normais” tivessem decidido suicidar-se para matar desconhecidos. Não por impulso, loucura, desespero, ganância ou ciúme, mas por convicção numa ideia. Ora quando uma ideia convence homens a derrubar os instintos de sobrevivência e os tabus éticos da civilização, para morrer e assassinar pessoas que nunca viram, convém investigá-la, em vez de chamar «contexto» ao fanatismo.
Comecei então a ler o Corão, hadiths , comentários, exegeses, estudos históricos, apologias, críticas e acusações inflamadas. Li autores de vários quadrantes, com diferentes simpatias, intenções opostas e graus variados de honestidade intelectual.
O resultado foi a pouco tranquilizadora impressão de que, nos seus fundamentos, enquanto projecto político, o Islão é muito mais do que uma religião no sentido ocidental. É doutrina de poder e visão totalitária da sociedade. Pretende regular a lei, a moral, a família, a educação, a liberdade, a guerra e a submissão. Não se contenta em salvar almas, quer governar corpos, e colide com a civilização liberal por fundamental incompatibilidade, não por falhas de tradução.
Sempre que se sinalizavam as características intolerantes do fundamentalismo islâmico e dos seus textos, acorriam logo em sua defesa sectores significativos da esquerda ocidental. Não toda, mas uma parte, ruidosa, cínica e moralmente arrogante, surgia invariavelmente a explicar que tudo era complicado, que era preciso compreender, que o Ocidente, Israel, a América, o colonialismo, e o capitalismo tinham culpas e, no limite, que era “bem feito”, que as coisas não surgiam no vácuo, e que as vítimas tinham tido o mau gosto de morrer no lugar errado à hora errada, sem consultarem as teoria pós-coloniais.
O espectáculo continua a ser inacreditável. “Progressistas”, feministas, laicos, libertários e defensores de todos os direitos humanos, incluindo os inventados anteontem, revelam infinita compreensão por regimes, pessoas e doutrinas que subordinam a mulher, perseguem o apóstata e o “infiel”, enforcam o homossexual, odeiam o judeu, calam o dissidente e encaram a liberdade como decadência.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.