O corpo é uma paisagem
Para lá das peripécias que os filmes colocam em cena, para lá da condição discreta ou mítica dos seus atores, explorando ambientes intimistas ou cenários espetaculares, a história do cinema ganha em ser vista através dos seus paradoxos.
Voltei a lembrar-me desta regra ao dar-me conta de uma efeméride que vale a pena assinalar.
Ou seja: foi há 60 anos que se estreou (em Los Angeles, 24 de agosto) Viagem Fantástica , de Richard Fleischer – por estes dias, tem estado disponível na plataforma AppleTV.
Qual a questão paradoxal? Era um tempo em que as aventuras e epopeias de maior impacto exploravam, de uma maneira ou de outra, a dimensão sedutora, porventura encantatória, dos grandes espaços.
Entre os líderes de bilheteira de 1966 encontrávamos, por exemplo, dramas históricos como Hawai , de George Roy Hill, ou Yang-Tsé em Chamas , de Robert Wise, ou ainda, Grand Prix , de John Frankenheimer, um retrato pioneiro dos bastidores da Fórmula 1.
Ora, em Viagem Fantástica , as paisagens são literalmente interiores: o essencial da ação acontece no interior de um corpo humano.
O cartaz original do filme sugere uma ambiência de ficção científica, algures numa galáxia distante.
Afinal de contas, os heróis são ou não são “astronautas” a disparar contra uma nave “espacial”? Para mais, a frase promocional contém uma promessa emblemática: “Quatro homens e uma mulher na viagem mais fantástica, espetacular e aterradora das suas vidas...” O certo é que os heróis que protagonizam tão invulgar epopeia - interpretados por Stephen Boyd, Raquel Welch, Donald Pleasance, William Redfield e Arthur Kennedy – são reduzidos a dimensões microscópicas para, através de uma nave (de idêntico minimalismo), serem introduzidos no interior do corpo de um paciente, dirigirem-se ao seu cérebro e aí tratarem um tumor...
Tudo isto tem um pano de fundo político, típico dos tempos da Guerra Fria.
O paciente é mesmo “o” cientista que inventou a fórmula que permite a miniaturização (dos humanos e seus objetos) – fugiu do Leste europeu para Nova Iorque, foi objeto de uma tentativa de assassinato e está em coma... com um tumor no cérebro! A premissa de base não é estranha a The Incredible Shrinking Man , um clássico das pequenas produções de Hollywood (“Série B”), lançado em 1957 e realizado por Jack Arnold – neste caso, um homem, inadvertidamente exposto a uma radiação desconhecida, começa a diminuir de forma assustadora...
"Estreado há 60 anos, o filme Viagem Fantástica acreditava na possibilidade de ‘percorrer’ o interior do corpo humano.” Vale a pena contrariarmos os preconceitos (pouco cinéfilos) que podem levar a banalizar estes cenários “fantásticos”, comparando-os com produções posteriores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.