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Quando o insulto substitui o argumento

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Quando o insulto substitui o argumento

A democracia não se mede apenas nas urnas. Mede-se também na capacidade de convivermos com quem pensa de forma diferente, de aceitarmos a crítica e de respeitarmos aqueles com quem discordamos profundamente. Parece uma evidência, mas episódios recentes mostram que talvez seja necessário voltar a afirmá-lo.

Esta semana, no Festival de Vilar de Mouros, no Alto Minho, uma banda estrangeira utilizou o palco para projetar uma mensagem ofensiva dirigida ao Chega. Um episódio que merece crítica, naturalmente, mas que deve sobretudo servir de ponto de partida para uma reflexão muito mais abrangente.

Um artista tem todo o direito de assumir posições políticas, defender causas, criticar governos ou partidos e contestar as nossas ideias. Faz parte da liberdade de expressão e da própria natureza de uma sociedade democrática.

Mas uma coisa é crítica política, mesmo quando dura ou incómoda. Outra é substituir argumentos pelo insulto e considerar que isso é aceitável apenas porque o destinatário é determinado partido ou determinada corrente política.

Nós não nos revemos nesta forma de estar e não replicamos este tipo de comportamento. Podemos discordar frontalmente dos nossos adversários, combater as suas propostas e denunciar aquilo que consideramos errado, mas a política deve continuar a fazer-se com argumentos.

É precisamente aqui que Portugal precisa de refletir. Nos últimos anos, temos assistido a diferentes episódios em que determinadas formas de hostilidade política parecem ser toleradas consoante quem as pratica e, principalmente, quem é o alvo. Nas ruas, nas universidades, nos eventos culturais, nas redes sociais ou nos festivais, aquilo que seria imediatamente condenado se dirigido a uns parece ser relativizado quando dirigido a outros.

A democracia não pode funcionar assim. O Chega representa mais de um milhão de portugueses. Podemos incomodar, podemos contrariar interesses instalados e podemos defender ideias que outros rejeitam profundamente. Tudo isso faz parte da democracia. O que não podemos aceitar é que os nossos eleitores sejam tratados como cidadãos politicamente menores ou que o insulto passe a ser legitimado simplesmente porque o alvo é o Chega.

Também quem organiza grandes eventos tem responsabilidades. Um festival envolve programação, produção e meios técnicos. É legítimo perguntar que conhecimento existe sobre aquilo que é projetado nos seus palcos e que critérios são aplicados. Não para limitar opiniões, mas porque liberdade e responsabilidade devem caminhar juntas.

Vilar de Mouros é apenas o episódio mais recente. Outros já aconteceram em Portugal e situações semelhantes continuarão certamente a surgir, dirigidas a diferentes partidos, ideologias ou pessoas. É precisamente por isso que esta discussão não pode depender de quem está do outro lado.

A liberdade de expressão só faz sentido quando é acompanhada pela capacidade de aceitar o contraditório. E o pluralismo só é verdadeiro quando reconhecemos aos nossos adversários o mesmo respeito democrático que exigimos para nós.

Portugal precisa de debate político, confronto de ideias, crítica e irreverência.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.

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