Santo Tirso com "más memórias, medo e alívio" depois do fogo
N a segunda-feira, ao final da tarde, viram o fumo e depois o fogo. "Não chega aqui", disse o pai de Cristina Flora, da ponta do jardim a olhar para a serra que se entende aos pés da casa, mas "chegou em cinco minutos", contou à Lusa Cristina.
"Nunca pensamos que ia chegar aqui. Temos tudo limpo, o chão estava limpo. Mas ele [o fogo] veio pela copa das árvores e saltou daquele lado para aqui e em cinco minutos tínhamos o fogo à porta", relatou.
Em três dias, naquele concelho do distrito do Porto arderam mais de mil hectares de mato. Não arderam casas "por sorte e pela mão de Deus". Mas o fogo levou muita coisa: "As nossas árvores de fruto. Tínhamos aqui muitas e duvido que voltem a dar fruto. Estão todas queimadas", lamentou Cristina.
Ainda com as marcas do calor do fogo na pele e com o olhar perdido entre as cinzas no jardim, Cristina explicou que as árvores são "muito mais do que árvores".
"Foram todas plantadas pelo meu pai ao longo dos anos. A casa foi-se construindo e ele foi plantando as árvores. Eram o orgulho dele. Todos temos muitas memórias de infância aqui com as árvores", explicou.
Foram as árvores e foram os animais do monte. O que se ouve é silêncio. "Desde segunda que não ouvimos pássaros, não vemos ouriços, coelhos, nada. Nem quero pensar o que lhes aconteceu", encolheu-se.
Em Monte Córdova, outro dos locais afetados pelo incêndio que chegou a mobilizar mais de 200 operacionais e mais de 70 viaturas, as conversas também estão cercadas pelo fogo: "Foi um inferno, menina, um inferno", descreveu à Lusa Laurinda, de 76 anos.
"Este não foi o primeiro, nem será, com certeza, o último. Mas este afligiu-me muito. Ele esteve ali, ali mesmo", disse, apontando para o "terreno ao Deus dará" em frente ao portão.
Do outro lado do portão de Laurinda a terra é negra. Cheira a fumo e a angústia. "Isto estava com silvas até ao céu. Ninguém limpa, ninguém sabe quem tem de limpar e depois é isto", criticou Ramiro Costa, outro habitante de Monte Córdova, também ele "já mais perto dos 80 que dos 70".
"Sabe, isto também é culpa dos tempos. Antigamente, aqui, todos tinham um porco, umas ovelhas e vinham aqui buscar a palha e tal e iam limpando isto com os animais. Agora os novos não querem nada disso, compram tudo no talho, e não ajuda", considerou.
Três dias depois, o fogo que chegou a ter cinco frentes já não arde. Não há fogo, mas há fumo. "Estamos a fazer o rescaldo, a vigiar, ainda há muito para fazer", descreveu um operacional de Coimbrões, enquanto arrefecia a terra com a mangueira.
Segundo o Comando Sub-Regional da Área Metropolitana do Porto, às 15:00 estavam no terreno 145 operacionais e 45 viaturas.
"Os bombeiros, coitados, eles andaram aqui acima e abaixo, mas o fogo era forte. Mas, vá, lá não ardeu nenhuma casa, nem morreu ninguém", salientou Ramiro Costa.
Com o fogo já extinto da terra, mas ainda a arder na memória, hoje "já se respirou melhor", mas, "o cheiro da terra queimada ainda está nas narinas e no ar".
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