Desigualdades e crise climática ameaçam desenvolvimento, alerta Guterres
G uterres considerou que as desigualdades não devem ser encaradas apenas como um problema económico, mas como uma questão de poder, relacionada com o acesso às oportunidades, aos recursos e à participação nas decisões.
Na abertura do debate anual da Assembleia-Geral das Nações Unidas (UNGA), que arrancou hoje em Nova Iorque, Guterres sublinhou que a humanidade nunca teve tanta riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica, mas que, para milhões de pessoas, o progresso continua fora do alcance.
Segundo o secretário-geral, enquanto algumas populações beneficiam da prosperidade e da globalização, outras enfrentam exclusão e receiam que o avanço tecnológico ameace os seus meios de subsistência.
O antigo primeiro-ministro português alertou ainda para o facto de milhares de milhões de pessoas continuarem privadas de necessidades básicas.
Destacou particularmente as desigualdades do sistema financeiro internacional, defendendo que nenhum país deve ficar privado de um futuro sustentável por se encontrar no lado mais desfavorecido.
Nesse contexto, defendeu uma reforma da arquitetura financeira internacional, incluindo um alívio da dívida mais rápido, eficaz e justo, bancos multilaterais de desenvolvimento com maior capacidade de financiamento e uma utilização dos direitos de saque especiais em benefício dos países que mais necessitam.
Guterres destacou também a desigualdade entre homens e mulheres como "a mais universal" das formas de desigualdade, alertando que mulheres e raparigas continuam a enfrentar discriminação, violência, exclusão e abusos.
Segundo o secretário-geral, os direitos das mulheres estão a recuar em várias partes do mundo, enquanto as suas vozes são silenciadas, os seus corpos são usados como campos de batalha e as suas liberdades são transformadas em moeda de troca.
Guterres associou a igualdade de género a sociedades mais estáveis e a instituições mais eficazes, destacando, neste contexto, o percurso das Nações Unidas.
"A igualdade não é um sonho. É uma decisão", acrescentou, defendendo que essa mudança também deve abranger Governos, parlamentos, empresas, processos de paz e a própria Assembleia-Geral.
Numa outra frente, Guterres apresentou a crise climática como "o desequilíbrio de poder intergeracional mais profundo de todos", argumentando que uma geração está a consumir o futuro da seguinte.
O secretário-geral, que teve a crise climática como uma das prioridades do seu mandato, alertou que os impactos da crise climática estão a chegar mais cedo, com maior intensidade e a atingir áreas mais vastas do que muitos antecipavam.
Guterres defendeu que as energias renováveis são atualmente a fonte mais barata de nova eletricidade em grande parte do mundo e constituem o caminho mais viável para garantir segurança e independência energética e um crescimento sustentável.
Nesse sentido, apelou aos Governos para que adotem planos nacionais de transição para abandonar os combustíveis fósseis, alinhados com o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 graus, com calendários claros e proteção para os trabalhadores e comunidades afetados.
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