Uma vida de burro contada por Paulo Moreiras
O título da novela de Paulo Moreiras que chegou recentemente às livrarias é comprido, Fortunas e adversidades de Luciano de Megera – Burro de muitos anos , mas resume o objetivo do autor: fazer a biografia de um burro.
Não é um propósito muito habitual na literatura nacional um escritor preocupar-se com estas vidas, até porque também é raro a prática do estilo picaresco entre nós.
Não que em outras escritas o burro enquanto protagonista tenha sido esquecido, basta lembrar que no século II já Luciano Apuleio relatou as aventuras de um jovem aristocrata romano que por um ato de magia se transforma num burro em O Asno de Ouro ( Metamorfoses ) e que em 1554 surgiu um romance de autor desconhecido que replica as desventuras do jovem romano noutro jovem, Lázaro de Tormes.
Séculos depois, em 2002, apresenta-se em Portugal o autor Paulo Moreiras com A Demanda de D.
Fuas Bragatela , que agora tem esta novela e continua a teimar neste género literário.
A exemplo do par de autores antigos citados, repesca as críticas sociais e a insensibilidade perante os mais pobres, entre outras características da novela pícara, apoiando-se na estrutura desse género literário e trazendo como Apuleio o personagem burro à ribalta e como Lazarilho um retrato da miséria e de maus costumes.
Paulo Moreiras confirma essas fontes como as que mais uma vez estão na base da sua escrita: “O que fiz foi resgatar o protagonista de Lazarilho de Tormes e ao mesmo tempo recuperar de O Asno de Ouro o jovem que é transformado em animal , só que na minha novela o papel principal é dado ao burro Luciano, que narra a sua história e dá a conhecer o mundo através do seu olhar, das suas angústias e da sua vivência, estando sempre em busca daquilo que mais prezava, a sua liberdade.” Não sendo a primeira vez que a palavra burro é chamada ao título, Moreiras nega qualquer fixação nesses animais.
Justifica: “O burro é um animal que se predispõe a ter um papel dentro das minhas narrativas , tanto que na maior parte dos meus livros há sempre essa presença.
Num romance recente, A Vida Airada de Dom Perdigote , o burro também aparece e existe essa referência a Apuleio.
Ou seja, é um animal de que gosto, até porque tive o privilégio de conhecer muitos burros ao longo da vida e fui tendo uma grande afeição por eles, deixando-os entrar nas minhas histórias.” Outro título-homenagem a estes animais foi o livro de contos O Caminho do Burro , histórias em que não surge nenhum destes animais mas que foram abrindo caminho ao autor para a escrita de romances.
Na introdução, Paulo Moreiras explica que esta novela não é de sua autoria e que foi alegadamente encontrada num alfarrabista e também insinua que tanto pode ser um “embuste como um exercício erudito”.
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