A depressão portuguesa
Portugal não está em depressão económica no sentido técnico: não está em recessão prolongada, o produto cresce e o emprego mantém-se elevado. Do ponto de vista clínico, também não existe uma enfermidade chamada «depressão portuguesa» que permita diagnosticar onze milhões de pessoas como se fossem um único doente. Mas há outro significado da palavra depressão que talvez descreva melhor o nosso estado coletivo: um rebaixamento prolongado das expectativas, da ambição e da confiança na possibilidade de transformar o país. Uma economia que cresce pouco durante demasiado tempo acaba por adaptar as expectativas ao crescimento baixo; uma sociedade que deixa de ter esperança na economia começa também a exigir pouco da política; e um país que já não sabe claramente onde quer chegar acaba por transformar a administração do presente no seu principal projeto de futuro.
Isso constitui uma anomalia histórica portuguesa. Portugal praticamente nunca viveu sem uma ideia de destino. A consolidação da independência teve-a; a expansão atlântica e os Descobrimentos tiveram-na; a construção do império teve-a; a Restauração voltou a dar ao país uma finalidade; o sec. XIX procurou modernizá-lo; no século XX, a democratização e a integração europeia forneceram um novo horizonte. Estes projetos foram profundamente diferentes, alguns produziram grandeza associada a custos e erros que a História também deve reconhecer, mas tinham uma característica comum: permitiam responder à pergunta «para onde vai Portugal?». Depois de 1986, a resposta voltou a ser extraordinariamente simples: apanhar a Europa. As autoestradas, as escolas, as universidades, o saneamento, a modernização das empresas e a abertura internacional eram partes de uma mesma promessa de convergência. O paradoxo é que abandonámos essa promessa antes de a cumprir e não descobrimos outra para a substituir.
Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Em 2025, o Produto Interno Bruto por habitante português, corrigido pelas diferenças de poder de compra, continuava perto de quatro quintos da média da União Europeia. Países da Europa Central e de Leste que, no início do século se encontravam muito atrás, aproximaram-se de forma extraordinária: a Chéquia, a Eslovénia e a Lituânia estão hoje acima de Portugal; a Polónia chegou aproximadamente ao nosso nível; Roménia, Croácia e Estónia aproximam-se perigosamente (para nós, não para eles). O dado mais revelador é, porém, a produtividade. Durante cerca de duas décadas, a produtividade portuguesa por hora trabalhada permaneceu próxima de dois terços da média da União Europeia. Portugal não parou de produzir nem empobreceu em termos absolutos; simplesmente não foi capaz de transformar cada hora de trabalho em muito mais valor relativamente aos países da UE. Uma perda de posição tão prolongada deixa de poder ser explicada por uma crise, um governo ou uma conjuntura. Torna-se uma forma de estagnação estrutural.
É neste contexto que o estudo de Nuno Palma e James A.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.