Psicose pós-parto ou crime planeado? O caso que parou os EUA
Três fitas de exercício físico, uma cave e apenas 55 minutos. Foi tudo o que Lindsay Clancy, uma enfermeira de obstetrícia, precisou para asfixiar até à morte os três filhos , em janeiro de 2023. Depois de cometer o crime, tentou suicidar-se e saltou de uma janela do segundo andar. Sobreviveu à queda, mas o impacto deixou-a paraplégica. Foi condenada e hoje, com 36 anos, considera-se inocente da morte das crianças por motivos de insanidade mental.
Além do papel de assassina, está uma mãe que, nos quatro meses anteriores à tragédia, recebeu prescrições para 13 medicamentos psiquiátricos diferentes enquanto pedia ajuda de forma desesperada. O caso acabou por expor graves falhas no sistema de saúde mental materna nos Estados Unidos e desencadeou um intenso debate na internet. O “tribunal das redes sociais” inundou-se de teorias da conspiração, que até chegaram a apontar como culpado o marido, que tem um álibi inquestionável. Os Estados Unidos estão divididos . Para uns, o caso é a prova de que o sistema de saúde norte-americano negligencia as mães e falha nos cuidados de saúde mental materna. Para outros, prevalece a indignação pela morte de três crianças inocentes. E tem de existir um culpado.
Porém, no Tribunal de Plymouth, em Massachusetts, o embate que se desenha não é sobre a autoria dos crimes. O julgamento — a entrar na fase das alegações finais e transmitido em direto para todo o mundo — foca-se em algo difícil de apurar, mas crucial: a questão da responsabilidade criminal . Clancy agiu de forma fria, calculada e racional, como sustenta a acusação? Ou foi arrastada para o abismo por um surto incontrolável de psicose pós-parto, fruto de uma doença mental grave e de um sistema de saúde que falhou em protegê-la, como explica a defesa? É este o veredicto que o júri tem agora em mãos.
Duxbury, um subúrbio a sul da cidade de Boston, era habitualmente o retrato de segurança familiar. Mas, a 24 de janeiro de 2023, essa normalidade caiu no espaço de poucos minutos. Lindsay Clancy, uma enfermeira de obstetrícia descrita por todos como uma mãe dedicada, estava em casa com os seus três filhos: Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de apenas oito meses. Desde o nascimento do filho mais novo, Lindsay debatia-se, nota o New York Times , com uma degradação da sua saúde mental , marcada pela ansiedade, insónias, pensamentos de automutilação e medo de magoar os filhos.
Dias antes do crime, Lindsay partilhou com o marido, Patrick Clancy, que estava a lutar contra problemas de saúde mental, tendo falado abertamente sobre pensamentos suicidas e receios de magoar os filhos. A enfermeira descreveu que se sentia paranoica, desconectada do corpo e assombrada por uma ansiedade extrema, segundo explicou Patrick no dia do seu testemunho em tribunal. Lindsay tinha até um diário no qual registou o seu desespero e a forte “névoa cerebral” que sentia.
Contudo, naquela terça-feira, Clancy acreditava que o pior já tinha passado. A mulher parecia invulgarmente “feliz e enérgica”. Tinham passado o dia juntos e até tinham construído um boneco de neve no quintal com as crianças.
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