Todos os dias o "Azulinho" atravessa Alcântara. Ao volante, "Maradona" é mais do que o motorista
Às oito da manhã, Bruno Teixeira senta-se ao volante do “ Azulinho”. Até às cinco da tarde percorre as ruas de Alcântara. A cada virar de esquina, há um rosto conhecido e um gesto que se repete. Bruno dá dois toques na buzina e levanta a mão. “ Olha o senhor Carlos. Senhor Carlos, como está? Tudo bem? Já vou fazer a volta e já passo para cima. Até logo”, cumprimenta, antes de resumir: “ Isto é o meu dia a dia”.
É assim desde 2021, quando assumiu a função de motorista na Junta de Freguesia de Alcântara. O país saía de uma pandemia e o “ Azulinho” voltava à rua. “ O início foi um bocado difícil, porque isto veio pós-Covid. As pessoas estavam com muito medo”, recorda Bruno. Na altura, havia uma barreira entre ele e os passageiros: “ Eu trabalhava com um acrílico gigante e não tinha o contacto direto.” E até conversar era difícil. “ Não conseguia ouvi-los, porque eles também não me ouviam. Foi muito complicado.”
Mas o tempo foi passando e Bruno foi conquistando os moradores. Na primeira paragem, no Bairro da Cabrinha, Adelina Inácio explica logo porquê.
Adelina começa então a enumerar aquilo que Bruno faz por ela. “ Eu gosto muito dele. Vem-me buscar, vem-me trazer, vai comigo…” E guarda para o fim o exemplo que melhor explica a proximidade entre os dois: “ Até lhe peço para ir comigo ao médico e ele vai, veja lá bem”. É nestes pequenos momentos que se percebe a relação entre o motorista e os passageiros.
Na verdade, Bruno apenas cumpre o itinerário estipulado. Mas, para Adelina ou para outras senhoras, é como se alguém fosse de propósito buscá-las. Adelina tem um filho, mas vive sozinha há 23 anos na Avenida de Ceuta, no Bairro da Cabrinha. Todas as semanas anda de “ Azulinho”. Já costumava utilizar o serviço quando havia outro motorista. “ Mas não era tantas vezes. Às vezes ia de autocarro”, distingue. “ Com o senhor Bruno é que venho sempre.”
Usa o transporte para ir às compras, aos correios, ao centro de saúde ou às atividades da junta. E quando Bruno vai de férias? “ Quando ele está de férias, venho no autocarro, no 751 ou no 756”, explica Adelina. Mas apressa-se a marcar a diferença: “ Não é igual. Não, não”. Quando vai muito carregada, acaba por recorrer ao táxi. “ Pronto, o senhor Bruno faz-me falta em tudo”, reconhece. E depois concede-lhe o inevitável: “ Mas ele, coitadinho, tem de ir de férias”.
A conversa faz-se enquanto o percurso segue. Noutra paragem, na Rua Professora Vieira Natividade, entra Helena. E, mais acima, já no Bairro do Alvito, a carrinha enche. Entram Odete, Conceição e dois Antónios. Os dois estiveram na Guerra Colonial e esse é um tema recorrente nas viagens. Mas nesta carrinha de 14 lugares há espaço para todo o tipo de conversa. Os filhos, os netos, as maleitas, as tricas entre vizinhos ou os jogos do Atlético Clube de Portugal.
Aqui não há apenas utentes. Há nomes, há histórias. Bruno conhece cada uma por trás de cada nome. Mas não só. Conhece também as necessidades. “ A maioria das pessoas que usam o ‘ Azulinho ’ têm uma média de idades para lá dos 70 anos”, começa por explicar. Muitos têm dificuldades físicas: “ São pessoas que têm muitas dificuldades de locomoção, sim”.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.