Ormuz e as missões empresariais ao Golfo
O prazo de 60 dias que Trump deu ao Irão terminou na última segunda-feira, sem acordo. Teerão já respondeu que a sua postura vai passar de “defensiva” para “totalmente ofensiva”, e isso devia ser motivo suficiente para qualquer empresa portuguesa com viagem ou contrato ligado ao Golfo Pérsico parar, hoje, e rever o plano.
No passado dia 17 de Agosto, terminou o prazo de 60 dias fixado no memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irão para se chegar a um acordo definitivo sobre o programa nuclear iraniano e a reabertura plena do Estreito de Ormuz. O Irão já reagiu, e classificou o fim do prazo como “irrelevante”, avisando que a sua postura vai passar a ser “totalmente ofensiva”, acrescentando que os Estados Unidos violaram o acordo inicial. Do lado americano, Trump respondeu com a linguagem que já lhe conhecemos, ameaçou bombardear Omã se se meter no seu caminho e chegou a sugerir que transformar Ormuz em território dos EUA seria “uma grande ideia”. Nada disto é retórica inconsequente, há alguns dias, dois navios foram atacados no estreito, e o tráfego marítimo praticamente parou depois de os Estados Unidos terem avisado que podem manter um bloqueio naval ao Irão indefinidamente. O petróleo já reagiu, subiu mais de dois dólares na segunda-feira seguinte, com os investidores claramente pessimistas quanto à via diplomática.
Convém situar isto num historial que já tem meses de intensidade, em Março, seguradoras internacionais cancelaram em bloco a cobertura de risco de guerra para navios no Golfo Pérsico, os prémios chegaram a subir 50% quase da noite para o dia, e alguns contratos de curta duração passaram a custar 1% do valor de reposição do casco, renovável a cada sete dias, quatro vezes mais do que antes do conflito. Em Abril, houve uma trégua de duas semanas negociada literalmente uma hora antes do prazo dado por Trump expirar, com reabertura condicional do estreito. Em Agosto, voltámos ao ponto de partida. Isto não é uma crise pontual que se resolve com um comunicado de imprensa, é um padrão de escalada e recuo que já dura há seis meses, e que continua sem desfecho estável.
Se gere uma PME que exporta para o Médio Oriente, ou uma consultora que organiza missões empresariais para aí, a pergunta não devia ser “vai estalar outra guerra?”, essa pergunta ninguém consegue responder com certeza. A pergunta certa é “o meu plano atual sobrevive a mais uma escalada como a de Agosto?” E aqui os números já existem, não são hipotéticos. Desde o início do conflito, as tarifas de frete no Golfo aumentaram entre 60% e 80%, e os prémios de risco de guerra passaram de valores residuais, entre 0,005% e 0,025%, para uma faixa de 0,25% a 0,50%, com previsões a apontar para custos de seguro marítimo de 5% a 10% por travessia em cenários mais tensos.
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