Show me the money, Uncle Luís
Danados do velhos reformados que querem um bónus, famílias que acham uma chatice ter de pagar tanto IRS, motoristas que querem uma ajudinha para partilhar o pagamento na caixa da bomba, empresas que choramingam por um apoio nos custos, investidores que exigem mais juros para emprestar ao país.
Luís Montenegro parece hoje aquele tio rico que vive rodeado de familiares, amigos e sócios que se fartam de queixar e que só querem dinheiro.
Ele percebe que as dificuldades “são muitas e são reais”, mas diz que não pode ajudar muito, só um bocadinho, porque senão ele próprio acaba apertado e aí ficamos todos nas lonas.
E ainda nos recorda, sempre que pode, daquela vez em que exagerámos naquela jantarada, o tio teve de cobrir a diferença na conta e depois não houve nada para ninguém durante muito tempo.
O primeiro-ministro e o seu Governo têm toda a legitimidade de discutir, decidir e comunicar as opções que quiserem.
A situação externa tem impacto grave a nível interno, mas isso não significa que são obrigados a mudar o rumo da disciplina que escolheram.
Não têm de baixar o IVA nos combustíveis, mesmo havendo um exemplo funcional mesmo aqui do outro lado da fronteira.
Não têm de repetir o IVA zero, mesmo com precedente de sucesso na anterior crise.
Não têm de atirar helicopter money , ou seja, de fazer chover dinheiro para as famílias lidarem com os problemas urgentes e que não resultam, neste caso, de festarolas com excessos.
O mantra das contas certas é louvável e saudável como política geral, mas nem sempre é a melhor escolha.
Num cenário que se afigura cada vez mais difícil, com uma guerra sem fim à vista e que provoca um choque inflacionário que já se transmite em disparos nos preços dos combustíveis, do gás e da eletricidade, dos bens alimentares, das prestações e rendas das casas, há que pensar nas outras alternativas.
Até porque, deturpando o título de um livro do académico Eric Davidson sobre o PIB e o ambiente, ninguém pode ‘comer’ um superavit orçamental.
Repito, o Governo tem todo o direito de tomar as decisões que achar melhor, foi mandatado para isso e, no final de contas, será responsabilizado pelas consequências.
Mas o que não deve fazer é entrar em falsos moralismos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em eco.sapo.pt — o conteúdo pertence a ECO.