Bensafrim em Lagos guarda história de necrópoles e escrita por decifrar
Duas necrópoles e várias estelas com inscrições em escrita do Sudoeste descobertas na Fonte Velha, em Bensafrim, testemunham a importância arqueológica deste território de Lagos, ativo que associações locais querem agora promover através do projeto Rotas Rurais.
Entre os vestígios de comunidades que aqui sepultaram os seus mortos, na Idade do Ferro e na época romana, encontra-se uma estela de grandes dimensões e um disco de ouro associado à Idade do Ferro, artefactos que estão no Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz.
A estela foi recolhida no final do século XIX, durante escavações arqueológicas no Algarve dirigidas por António dos Santos Rocha e Estácio da Veiga.
Como Santos Rocha era natural da Figueira da Foz e aí fundou a Sociedade Arqueológica, levou a peça para a sua cidade natal.
"Há 2.500 anos, nós sabíamos escrever como poucos na Europa.
Éramos dos mais inovadores neste território, que abrange o Baixo Alentejo e a Serra do Algarve", afirma o arqueólogo Pedro Barros, consultor científico do projeto, que visa valorizar o património arqueológico, rural e agrícola de Bensafrim, Barão de São João e Odiáxere.
Só em Bensafrim foram encontradas seis estelas, sendo que a maior e mais bem preservada, exposta na Figueira da Foz, tem 1,35 metros.
Acredita-se que as estelas tinham relação com o mundo funerário e que também serviam como marcos territoriais na paisagem, mas o que dizem é um mistério, já que a escrita do Sudoeste ainda não foi decifrada.
"Como tem influência Fenícia, proveniente do Mediterrâneo oriental, escreve-se de forma contrária à nossa, ou seja, de baixo para cima e da direita para a esquerda", explica Pedro Barros, notando que os carateres são apresentados em forma de espiral, não havendo separação de palavras nem pontuação.
Segundo o investigador, a necrópole da Idade do Ferro da Fonte Velha destaca-se entre as maiores do sul de Portugal, pela dimensão, pelo conjunto de estelas e pelas características dos enterramentos descritos nas escavações antigas.
Os registos deixados por quem a estudou não bastaram para a reencontrar.
Houve tentativas no final da década de 1990 e em 2014, cruzando referências antigas, nomes de lugares e indicações de distâncias.
"Apesar deste esforço, não se conseguiu voltar a localizar a necrópole da Fonte Velha de Bensafrim", reconhece o arqueólogo, acrescentando que a lacuna se estende aos lugares habitados: "Das escavações antigas conhecemos os espaços da morte, mas nunca foi identificado o sítio onde as pessoas viviam".
Os livros de campo das escavações realizadas no final do século XIX apontam para corpos depositados em cistas, estruturas feitas com lajes de pedra verticais que serviam como caixões.
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