Um sorriso no meio do terror
Em Portugal, chamam-se crónicas a textos que provavelmente não são crónicas.
São textos em que as pessoas dizem o que pensam, misteriosamente igual ao que a pessoa da véspera já tinha pensado.
Abel Barros Baptista In Público de 9 de outubro pp A escrita destes textos semanais, que desliza entre manifestação de opiniões e interrogações à própria escrita, tem-me afastado da poesia, sem me aproximar das elegantes digressões que tanto admiro em Montaigne.
A leitura destas observações de Abel Barros Baptista levou-me ao saudável exercício de pôr em causa o modo de dizer de tudo o que aqui tenho dito.
Escrever semanalmente para o Diário de Notícias permite obrigar-me ao exercício de uma escrita, justamente oscilante entre o artigo de opinião, o ensaio curto e a crónica, sem nunca chegar a uma definição do terreno que piso ou a uma satisfação do autor que sou (também o conselheiro Acácio “era autor” e essa reminiscência queirosiana assusta-me mais do que a “morte do autor”, anunciada já há uns bons anos por Barthes e contrariada hoje pelo narcisismo do nosso tempo).
É que a ideia de Barthes impregnou a minha geração e fez-nos procurar, num texto, o que se desenha no que ele não diz, fazendo-nos perder a especificidade da voz que nos dá esse texto.
Mas por detrás do autor continua a pairar o sorriso do conselheiro Acácio...
A escrita sobre nada, sonho de Mallarmé, para a poesia, e de Flaubert, para o romance, talvez conheça uma aproximação paradoxal nos grandes cronistas brasileiros.
É certo que as suas crónicas partem sempre de um objeto, facto ou situação definidos.
Mas o desenvolvimento da crónica incide mais no olhar irónico do cronista e na escrita que desse olhar decorre, que do facto ou situação de que partem, que se tornam a pedra da magnífica sopa de pedra que nos cozinha um Rubem Braga ou um Nelson Rodrigues.
Tudo isto para declarar que não sei bem o que ando aqui a fazer, o que pode bem afastar destas linhas os meus poucos leitores, desiludidos com tantas tergiversações.
Uma amiga minha, que faz o favor de me ler, disse-me que o tema subjacente aos meus últimos artigos tem sido sempre o envelhecimento e a morte.
Posso alegar que nestes tempos apocalípticos, em que todos os dias nos anunciam o fim do mundo, seja por força da corrosão da natureza pelo antropoceno, seja por ação das redes inexoráveis da Inteligência Artificial, seja pela velha e sempre nova guerra nuclear, nada há de mais atual que olhar para esse “sol negro da melancolia” que nos traz a atualidade e procurar esboçar um sorriso no meio de tantos terrores.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.dn.pt — o conteúdo pertence a Diário de Notícias.