Artur Baptista da Silva passeia-se por Cambridge
Natal de 2012. O país estava em transe. O Passismo, dizia-se, destruía o tecido social e a economia, condenando Portugal a uma pobreza total da qual jamais se levantaria. Nesse ambiente, as Nações Unidas terão feito um relatório sobre a crise social na Europa do Sul dirigido por Artur Baptista da Silva, doutorado pela Universidade de Milton, Wisconsin, que a Lisboa bem-pensante recebeu de boca aberta durante semanas, até que uma ida ao Expresso da Meia-Noite revelou o óbvio: era um burlão de segunda, com um doutoramento falso e o mais perto que estivera das Nações Unidas terá sido uma visita guiada ao edifício.
Treze anos depois de Baptista da Silva, uma fraude inocente que pôs o país a rir naquele Natal de 2012, as fraudes estão por todo o lado. A mais recente e mais famosa foi a de Jason Arday. Vale a pena passar as credenciais de Arday a pente fino porque, sem dúvida, é um burlão de um calibre superior ao de Baptista da Silva. Nascido em 1985, Arday dizia ter sido não verbal até aos onze anos e que só aprendera a ler aos dezoito, o que não augurava propriamente um futuro académico brilhante. Para além disso, afirmara ter feito voluntariado para a WaterAid a instalar pontos de água na África do Sul e na América Latina, e que correra 30 maratonas em 35 dias, tendo sofrido, inclusive, um ataque epiléptico a meio da vigésima primeira maratona, que, ainda assim, concluiu. Com estas corridas, conseguira angariar mais de 5 milhões de libras para obras de caridade. Academicamente, Arday mostrou também ser um óptimo burlão. Depois de uma tese com inúmeras passagens plagiadas, dizia ainda ter sido, tal como o nosso Feliciano Duarte Barreiras, professor visitante na Ohio State University e na Universidade de Glasgow, além de afirmar ter uma cátedra honorífica em Durham, no norte de Inglaterra. Todas estas mentiras foram premiadas, para espanto de muitos, com uma Cátedra em Sociologia da Educação em Cambridge. Ao longo dos últimos anos, vários académicos e jornalistas começaram a alertar para a situação de Arday, que negava veementemente qualquer problema e, mais, ameaçava processar quem se atrevesse a falar sobre o assunto. Na semana passada, as mentiras foram demasiadas, e Arday acabou por demitir-se de Cambridge e, mais tarde, suicidar-se em Londres. Uma tragédia.
Como foi possível que tudo isto acontecesse? Convém dizê-lo com clareza: isto não é uma história sobre a maldade da imprensa de direita, por mais que alguns tentem agora vendê-la como tal, e o New York Times, jornal que dificilmente se pode suspeitar de enviesamento à direita, fez aliás um retrato minucioso das falhas de Cambridge neste processo. É antes a história de instituições intelectuais outrora eminentes a falharem a sua missão, sintoma claro de um declínio mais vasto e mais antigo.
Ao longo dos últimos anos, a academia, especialmente nas ciências sociais, mudou muito. Em primeiro lugar, a lógica que alguns denominam “métrica” na avaliação dos currículos académicos passou a ser vista com o mesmo desconforto moral que se reserva a um pecado confessável: coisa de editoras, de mercado, de um mundo em que ainda se contavam coisas para se avaliar alguém.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.