O mito da sobreprodução e o resgate da nossa viticultura
Paralelamente, assiste-se a uma narrativa injusta que tende a diabolizar o vinho, confundindo o consumo moderado de um elemento identitário e milenar da nossa cultura com os malefícios do consumo desregrado de outras bebidas. Trata-se de um diagnóstico duplamente falacioso, que oculta a verdadeira fratura do setor, a incapacidade regulatória do Estado em proteger a cadeia de valor nacional contra circuitos opacos de importação e que desvia as atenções das transformações reais do mercado.
Num mercado onde a procura agregada excede a capacidade produtiva nacional, seria expetável uma valorização natural da matéria-prima, no entanto, assiste-se ao colapso do preço pago pela uva ao viticultor, empurrado para patamares abaixo dos custos reais de produção, enquanto a mão de obra, a energia e os fatores agrícolas não cessam de aumentar.
A raiz desta assimetria não está num excesso de colheita nacional, mas sim na entrada maciça e desregulada de vinhos a granel sem rastreabilidade efetiva, num mercado onde o consumidor contemporâneo privilegia, cada vez mais, a autenticidade, a história e a diferenciação de cada garrafa.
A viticultura ultrapassa a mera dimensão económica; constitui a verdadeira espinha dorsal da coesão territorial e o principal dique contra o abandono e o êxodo do mundo rural.
Em dezenas de municípios do interior de Portugal Continental, a vinha representa uma fatia determinante do Valor Acrescentado Bruto e do emprego direto das populações locais. Deixar enfraquecer este tecido produtivo e assistir impávidos e serenos ao colapso financeiro da atividade vitícola, arrasta consigo o ecossistema social de comunidades inteiras e significa acelerar a desertificação humana e económica de vastas regiões do país.
Por essa razão, a insistência em medidas cegas como o arranque financiado de vinhas encerra um perigo irreparável e é um erro estratégico grave. Sem critérios qualitativos e estratégicos rigorosos, o sistema arrisca-se a patrocinar o abate das parcelas mais valiosas e diferenciadoras do nosso património — as vinhas velhas de baixa rentabilidade volumétrica, parcelas de socalcos tradicionais e as castas autóctones raras que definem a singularidade de Portugal no mundo e sustentam o nosso renovado prestígio internacional.
Destruir património genético secular para acomodar a entrada de excedentes industriais externos traduz uma inversão completa de prioridades públicas.
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