Se os factos são os mesmos, por que mudam as notícias?
Os média de natureza jornalística são frequentemente acusados de apresentarem relatos tendenciosos, manipulados ou até falsos. No fluxo de notícias, acumulam-se exemplos que parecem revelar contradições. Estaremos perante falsidades ou formas diferentes de enquadrar a realidade? Convém, por isso, distinguir o que é uma mentira do que é um “frame” noticioso.
No passado sábado, os jornais espanhóis “El Mundo” e “La Vanguardia” apresentavam, respetivamente, as seguintes manchetes: “El Gobierno incapaz de manejar a los 6.500 que aún vagan por Ceuta” e “El Gobierno no logra tomar el control del alud migratorio en Ceuta”. Por seu lado, “El País” titulava em primeira página: “El Gobierno prepara un plan de ayudas para revitalizar Ceuta”. À primeira vista, parece que há opções jornalísticas que falseiam a realidade. Não é assim. Ceuta continua a braços com um sério problema migratório, sem que os responsáveis políticos tenham conseguido encontrar uma resposta minimamente satisfatória. Respeitam a realidade os relatos jornalísticos que falam de imigrantes à deriva em Ceuta: Espanha conseguiu travar a entrada, mas foi, até agora, incapaz de devolver todos aqueles que entraram no país sem autorização. Para minimizar danos, o Governo de Pedro Sánchez delineou uma resposta em três frentes: humanitária; de segurança e gestão das fronteiras; e de recuperação económica de Ceuta. Percorrendo os três diários espanhóis, percebemos que há diferentes “frames” e que cada um procura ser fiel à realidade que mediatiza, destacando, para isso, diferentes ângulos. Erving Goffman, inspirado em Gregory Bateson, é um dos autores fundamentais para pensar esta problemática. Na obra Frame Analysis (1974), este investigador recorre ao conceito de “frame” para explicar de que modo determinadas estruturas interpretativas organizam a nossa experiência social e orientam a forma como atribuímos significados à realidade. Com base nestas propostas, vários autores (Tuchman, Entman, Gitlin, por exemplo) aprofundaram o conceito no campo dos média, definindo o “framing” como um processo de seleção e de saliência. Ora, a partir daqui, percebemos que falamos de uma realidade que nada tem a ver com distorção, manipulação ou mentira. Referindo-nos, antes, a uma forma de organização e de interpretação da realidade. Uma notícia nunca pode contar tudo. Há sempre escolhas: de ângulos, de fontes, de modos de narrar. Essas escolhas são condicionadas por valores-notícia, pela linha editorial do meio, pelo alinhamento noticioso do dia e, naturalmente, pelas opções dos próprios jornalistas que têm também o seu campo de autonomia. No caso de Ceuta, as três manchetes são factualmente verdadeiras e, simultaneamente, constroem leituras diferentes do mesmo acontecimento. O que muda é o ângulo através do qual a realidade é relatada. Assim, devemos sempre interrogar “que realidade está a ser selecionada?”, “que aspetos são mais destacados?”, “que fontes de informação sustentam os relatos jornalísticos?”, “qual a linha editorial do meio de comunicação?”. Na construção de um texto noticioso, há sempre processos de seleção, de hierarquização e de enquadramento. É a esse nível que atua o “frame”.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.rtp.pt — o conteúdo pertence a RTP Notícias.