Deixem jogar a Sweeney
Sidney Sweeney fez uma campanha publicitária para uma casa de apostas desportivas e a internet voltou a indignar-se. Depois daquele do ano passado, para a American Jeans, em que se dizia que Sidney tinha “bons jeans” , brincando com a homofonia das palavras, isto é, o facto de “jeans” (calças de ganga) e “genes” se lerem em língua inglesa exactamente da mesma forma. A acusação, então, era, nem mais, nem menos que a de promover a eugenia e a supremacia branca, a superioridade dos louros, dos de olhos claros, dos bonitos; agora, a de, ao surgir seminua ou mesmo nua, oculta apenas nas partes mais políticas atrás de acessórios desportivos, estar a sexualizar o desporto feminino, reduzir a longa luta das mulheres no desporto, de novo, à condição de mero objecto para entretenimento do homem.
E uma pessoa só não sorri porque lhe ocorre a imagem de também ser atirada à fogueira no acto de o fazer. Neste mundo, neste tempo, é deste assunto que queremos falar. De Sidney Sweeney e dos seus supostos pecados. Folgar, por um momento, as costas dobradas ao peso de todos os apocalipses que parecem ter-se juntado, nesta era, sobre as nossas cabeças. De um lado, um pelotão de fuzilamento composto pela guerra, escalada da inflação, desastre climático e ameaça de extermínio pela IA; do outro, Sidney. Dêem-nos, ó deuses, muitos dilemas assim.
O que a campanha da Novig pretende em 2026 é muito simples: um momento de fuga. Escape. Falar a todos os que estão esmagados pelas tensões e nuvens no horizonte. “No betting on wars, or deaths and no politics” , diz, literalmente, Sweeney, já perto do fim: “Sem apostas em guerras, mortes ou política.” “Just you, your takes and sports”. Só tu, os teus palpites e o desporto.
É esse o – importante – lugar do desporto no mundo contemporâneo; é esse o lugar de uma figura do entretimento como Sweeney. Nem tudo é político, por muito que uma parte da sociedade continue convencida disso. Tudo é político na cabeça de quem pensa a política, não na de quem é pensado. O indivíduo, protagonista da sua própria história, não escolhe café ou descafeinado por razões políticas, beber água ou Coca-cola, ir à praia ou ao campo, ao cinema ou à biblioteca, francês em vez de americano, alto em vez de baixo, com natas ou sem natas, de manhã ou à noite, com mais ou menos roupa, louro ou moreno, futebol ou beisebol, curling ou chinquilho. Escolhe porque gosta ou não gosta, porque é o que lhe apetece, porque não tem de estar sempre a salvar o mundo. Porque, às vezes, tudo o que precisa é de ver um jogo do seu clube ou olhar para 30 segundos de uma rapariga ou rapaz bonito.
O desporto é sexualizado há tanto tempo que Sidney ainda nem existia. Fazer deste caso outra batalha cultural é dar mais uma vitória fácil ao que, supostamente, se quer combater. Deixem jogar a Sweeney. O mundo está demasiado sujo para tanta pureza.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.