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Agosto de 1808: Portugal não assinou

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Agosto de 1808: Portugal não assinou

Um amigo inglês, jornalista de profissão, embora não de diploma, tornou-se conhecido pelas longas entrevistas que faz a figuras de grande notoriedade. Foi aceite em História na LSE, mas decidiu não seguir os estudos universitários, por considerar a academia demasiado woke para valer o seu tempo. E alimenta há anos a mania de me recomendar livros sobre a história de Portugal. A mania nasceu no Museu Marítimo de Greenwich, numa tarde em que, a braços com uma cerveja quente e sem gás, como só os ingleses sabem fazer, discordámos com alguma energia sobre a forma como certas notas históricas ali estão escritas. Não sobre datas, porque as datas ninguém contesta. Sobre a arrumação. Quem começou, quem ensinou quem, quem estava a proteger quem e a troco de quê. Ditas do lado de lá da mesa, aquelas frases têm o inconveniente de contradizer, com cinismo britânico, precisamente aquilo que em Portugal se ensina como facto assente e se repete em discursos do Dez de Junho. Não que eu aprecie particularmente debates. Tenho a tendência de ouvir o outro lado para confirmar que tenho razão.

O livro que ele acabou por me impingir chama-se Britannia Sickens: Sir Arthur Wellesley and the Convention of Cintra , é de Michael Glover, saiu em Londres em 1970, tem poucas páginas e o título é um verso de Byron. Tarda uma tarde de praia a ser lido, o que já é meio caminho andado para uma recomendação decente. E trata do que aconteceu a partir de 17 de Agosto de 1808, data que hoje faz duzentos e dezoito anos.

Quanto mais avançava na leitura, mais clara me parecia a provocação por detrás do livro. A tese de fundo é mais ou menos esta: por essa altura, Portugal já não era verdadeiramente independente. Havíamos entregue a nossa independência aos bárbaros das tribos do arquipélago no norte da Europa. A partir de 1808, a primeira pessoa do plural, quando aplicada às decisões sobre Portugal, deixou de incluir os portugueses. A invasão francesa não transferiu apenas território, que aliás acabaria por voltar. Transferiu a competência para decidir. Essa, porém, ficou por lá. O território regressou. A autonomia, não. Ficou em Londres, onde haveria de criar raízes mais profundas do que qualquer exército francês. A rainha havia muito que não estava em condições de reinar, o príncipe regente saíra para o Brasil em Novembro de 1807, as Cortes não se reuniam havia mais de um século e o que restava do Estado era uma junta, pequena assembleia de homens a pedir instruções por carta a duas capitais estrangeiras ao mesmo tempo. A soberania tinha-se tornado uma espécie de administração por correspondência. Hoje está em Bruxelas.

Glover conta a história do lado britânico e conta-a com detalhe e parcimónia. A 17 de Agosto, na Roliça, Wellesley bate Delaborde. A 21, no Vimeiro, bate Junot. Nesse intervalo é ultrapassado na cadeia de comando por Burrard e depois por Dalrymple, dois homens prudentes que preferiram negociar a perseguir. Em Portugal, defendemos uma versão cómoda: a do velho general britânico que chegou tarde, não percebeu o que tinha na mão e deitou fora uma vitória. Se a culpa foi de um homem distraído, Portugal foi vítima de um azar e não de uma condição.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

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