Auto da Bazuca
Gabinete do Primeiro-Ministro, São Bento, três da manhã. Sobre a secretária, um dossier com a lombada gasta: PRR — Pedido de Pagamento n.º 7. O Primeiro-Ministro assina devagar, página a página, com o ar de quem reza um terço. Entra na sala um cheiro a pimenta. Depois, um cheiro a cal, pólvora e terramoto.
D. MANUEL I — Formoso paço. Pequeno, mas formoso. No meu tempo isto era um mosteiro; nota-se que ainda se trabalha por votos. Dizei-me, bom homem: sois o mordomo-mor?
O PRIMEIRO-MINISTRO — Sou o Primeiro-Ministro de Portugal. E o senhor, se me permite, está morto há quinhentos anos.
D. MANUEL — Quinhentos e poucos. O tempo voa quando se é venturoso. E que papéis são esses que assinais com tanta devoção? Cheiram-me a tributo.
O PRIMEIRO-MINISTRO — É um pedido de pagamento. Fundos europeus. O Plano de Recuperação e Resiliência — vinte e dois mil milhões de euros, entre subvenções e empréstimos. Assino os marcos e as metas, Bruxelas verifica, e o dinheiro é desembolsado.
D. MANUEL — Desembolsado. Que verbo tão doce. E que frota trouxe esse tesouro? Quantas naus perdestes no Cabo?
O PRIMEIRO-MINISTRO — Nenhuma. Não é preciso frota. É uma transferência. Chega por via eletrónica.
D. MANUEL — Uma Índia sem naus, sem monções e sem escorbuto. E ainda me chamavam a mim o Venturoso. Eu esperava a monção; vós esperais o desembolso. Eu tinha a Casa da Índia; vós tendes… como se chama a repartição?
Do canto escuro da sala, uma voz que faz tremer os candeeiros. O Marquês de Pombal avança, de casaca, com o olhar de quem mandou matar os Távoras.
POMBAL — Ficou tudo. Majestade, sempre no sítio do costume: ao pé do dinheiro. E vós, senhor Primeiro-Ministro, respondei-me sem floreados: que vende Portugal para merecer essa fortuna?
O PRIMEIRO-MINISTRO — Não é bem vender, senhor Marquês. São fundos de coesão. A título não reembolsável, na maior parte. A União Europeia apoia os Estados-membros menos desenvolvidos para promover a convergência—
POMBAL — Não reembolsável. Já ouvi essa cláusula. Também o ouro do Brasil não era reembolsável — vinha do chão, de graça, aos quintais. E dizei-me: há quanto tempo dura essa convergência?
O PRIMEIRO-MINISTRO — Aderimos em 1986. Portanto… quarenta anos de fundos.
O PRIMEIRO-MINISTRO — (folheia o dossier) Nos primeiros tempos, sim, bastante. Depois… o rigor obriga-me a dizer que, desde o início do século, face à média europeia, temos andado… estáveis.
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