sábado, 22 de agosto de 2026 PortaisSobre🌓
🇵🇹 PT ▾
ÚLTIMA HORA
Últimas

A tirania da ronda de financiamento

Observador ·
A tirania da ronda de financiamento

Há 20 anos que falo com jovens empreendedores. Muitos chegam com uma apresentação preparada para investidores antes de terem tido uma conversa séria com clientes. Sabem qual poderá ser a próxima ronda, imaginam o exit, conhecem os múltiplos e o discurso certo para impressionar o ecossistema. Mas, por vezes, ainda não sabem se alguém está disposto a pagar pelo produto.

Talvez os ventos estejam a mudar porque, ultimamente, tenho encontrado mais empreendedores que preferem financiar as suas empresas com a própria receita. Não por falta de ambição, mas porque perceberam que há mais do que uma forma de construir uma empresa. Querem crescer ao ritmo que o negócio permite, reinvestir os lucros, pôr os clientes em primeiro lugar e, sobretudo, manter o controlo. É uma escolha menos vistosa, quase nunca celebrada nos palcos, mas viável e com benefícios reais a longo prazo.

O curioso é que, durante muito tempo, esta era a escolha normal. Construía-se uma empresa com uma ideia, algum dinheiro para arrancar, clientes, vendas, recrutamento e crescimento. O capital externo podia surgir mais tarde, se fizesse sentido. Não era um ritual de passagem obrigatório, nem uma prova de que o negócio era sério.

A dada altura, o boom das startups alterou essa perceção. A narrativa dominante passou a ser outra: levantar capital, crescer depressa, adiar a rentabilidade e perseguir a próxima ronda. Acabámos por confundir avaliação com valor.

Para muitos jovens empreendedores, levantar capital tornou-se uma forma de dizer ao mundo que chegaram, que foram escolhidos, que pertencem à corrida certa. Num tempo em que parecer grande conta tantas vezes mais do que ser sólido, a empresa que anuncia investimento parece imediatamente mais relevante do que aquela que cresce em silêncio com clientes pagantes.

Nada disto significa que o capital de risco seja dispensável. Pelo contrário, há empresas que dificilmente existiriam sem ele, e a sua escassez continua a ser uma fragilidade europeia face aos Estados Unidos. Na biotecnologia, na aeroespacial, na inteligência artificial ou na computação avançada, são necessários investimentos enormes muito antes de haver receitas relevantes. O capital de risco ajudou a criar algumas das empresas tecnológicas mais importantes do mundo e continuará a ser essencial para projetos de grande intensidade financeira e elevada incerteza tecnológica.

O problema não está no capital de risco. Está na transformação desse caminho na única linguagem respeitável da ambição. Há empresas para as quais levantar capital é indispensável. Há outras para as quais pode ser uma distração, uma pressão desnecessária ou até uma forma de perder demasiado cedo o controlo do próprio destino.

O autofinanciamento tem outra lógica. Obriga a provar cedo que alguém está disposto a pagar pelo produto, a gerir custos, a escolher prioridades e a crescer com base na procura real. Pode ser mais lento e menos dado a apostas espetaculares, mas cria empresas mais disciplinadas, mais próximas dos clientes e menos dependentes da próxima ronda.

Ler a notícia completa no Observador ›

Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.

Mais de Observador

Ver tudo ›

Mais em Últimas

Ver tudo ›