Um retrato do dia-a-dia nas organizações públicas
São perto das nove horas da manhã. No parque em frente ao Instituto, os carros ali estacionados dão conta de quem menos dorme para manter a coisa a funcionar. Dia após dia, seja à hora de entrada, seja à de saída, muitas daquelas viaturas repetem-se nos mesmos lugares, quase como se nunca abandonassem o local. Se tivéssemos de julgar apenas por isso, ficaria a ideia de que alguns dirigentes não dormem de todo.
Em todo o caso, há que aproveitar esse último reduto livre de parquímetro, que é a meia dúzia de lugares que o município, por benevolente solidariedade para com uma entidade pública sua congénere, destinou àquelas chefias. Para quem não tem direito a essa benesse institucional, resta vir de transportes, contribuir para o orçamento municipal ou tentar encontrar vaga num parque não pago. Numa grande cidade, isso é mais ou menos o mesmo que procurar uma agulha num palheiro, mas geralmente dá direito a uma bela caminhada matutina, e caminhar faz bem.
Logo ao passar da porta, o porteiro acena, num gesto rotinado, ao gradual corrupio de gente que passa o dedo pela maquineta de picagem do ponto. Com ar mais ou menos grave, a maior parte dos funcionários repete esse ritual diário, nada ou, pelo menos, questionavelmente necessário, para evitar ter de o reproduzir mais tarde em modo digital e, com isso, roubar ainda mais alguns minutos às já escassas horas de sono das respetivas chefias, sobrecarregando-as, coitadas, com esse importante assunto estratégico que é validar as picagens em falta.
Por vezes acumulam-se pequenas filas, e esse momento de chegada acaba também por servir de mote a felizes reencontros: “Então, como é que estás? Já não nos víamos há algum tempo! Como vai o teu mais novo?”, ou, simplesmente, “E o teu Benfica, pá?”. Invariavelmente, pelo meio, surge também o “Vai-se andando, sabes como é. Cheio de trabalho!”, essa espécie de resposta de entendimento universal que permite dizer quase tudo sem explicar coisa nenhuma.
Os reencontros prolongam-se depois pelos corredores, acompanham a entrada nas salas e acabam muitas vezes por desembocar junto à máquina do café ou, no caso dos que prezam menos a saúde, no cigarro à porta do edifício. É aí, já com o ponto devidamente picado e cumpridas as primeiras formalidades que as conversas começam a aproximar-se do que realmente importa: “Já soubeste das novidades? O fulano X vai-se embora?”, “Então, afinal, aquilo vai mesmo avançar?”, ou o inevitável “Precisava mesmo de falar contigo!”. Há uma urgência que começa a surgir, e as conversas mudam gradualmente de tom, marcando a hora da fuga ou luta, que é o mesmo que dizer, de ocupar a secretária.
Liga-se o computador e começam então as primeiras diligências para lidar com o inevitável: abrir o correio eletrónico, perceber o que chegou entretanto, distinguir aquilo que exige resposta daquilo que pode esperar e, sobretudo, descobrir o que os outros decidiram que merece a nossa atenção, o que naturalmente devolvemos na mesma moeda.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em observador.pt — o conteúdo pertence a Observador.