O Brasil do bêbado e a equilibrista
Quem, como eu, se dedica à deliciosa tarefa de olhar e compreender o Brasil a partir deste lado do Atlântico (desde o início deste ano que sou colunista residente no jornal Folha de São Paulo, o mais influente do País), uma coisa pode ter como certa: o sobressalto.
Se há coisa que o Brasil em geral, e a política brasileira em particular, nos garantem é momentos de deslumbramento, euforia, pasmo e horror. Acompanhar os 41 anos desde a redemocratização brasileira é como seguir num carro descontrolado de uma montanha-russa, numa viagem de altos e baixos com garantia de adrenalina nos píncaros.
Ainda está para nascer melhor cronista do que Eça de Queiroz, e é dele uma frase lapidar que melhor embrulha o Brasil para lusitano entender: "os brasileiros são os portugueses dilatados pelo calor".
Também politicamente é assim. Os brasileiros conseguem ter todas as nossas (modestas) qualidades e todos os nossos (inúmeros) defeitos, mas em doses agigantadas. Da mesma forma que o povo é mais expansivo, caloroso e exuberante, assim também é a política. Quando os brasileiros são bons, são mesmo muito bons: brilhantes, comunicativos, inspiradores. Quando são maus, são muito maus: corruptos, imorais, vilões de filme.
Também na política tudo é intenso e desmedido, como o Carnaval. Ao brasileiros não basta experimentar, eles excedem toda a razoabilidade com estridência, vitalidade e, sim, loucura. Basta dizer que, em quatro décadas, o Brasil teve dez mandatos presidenciais e oito presidentes, dos quais dois acabaram destituídos por impeachments e quatro foram presos depois de deixar o cargo – Michel Temer foi detido preventivamente; Collor de Mello, Lula da Silva e Jair Bolsonaro após condenação.
Ao pé disto, a Operação Influencer e José Sócrates, que tanta legítima indignação causam por cá, são cenas de meninos de coro. A Justiça brasileira também é mais rápida e implacável, é um facto, mas muito mais questionável e dada a polémicas e crises institucionais.
Olhe-se para o escândalo (a palavra não é um exagero) que se está a passar agora no Supremo Tribunal Federal, um frenesim noticioso no meio de um processo eleitoral, com suspeitas de promiscuidade e corrupção entre um magistrado e um banqueiro investigado que se transformaram numa guerra pública entre super-juízes. Um dano imenso que poderia fazer desabar uma democracia dita “normal”, mas a do Brasil, inexplicavelmente, parece sempre encontrar forças para se restabelecer e superar dos abalos mais profundos.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em cnnportugal.iol.pt — o conteúdo pertence a CNN Portugal.