O dia em que o São Paulo morreu (e eu também)
Durante sessenta anos, eu dediquei o que tenho de melhor, que é a imaginação, ao São Paulo Futebol Clube. Hoje, no dia 15 de agosto de 2026, desisto, em caráter definitivo, de dedicar os meus sonhos a essa ilusão.
Em que pese à diretoria e aos conselheiros, que não passam de parasitas, os que vestem a camisa e entram em campo são os meus ídolos desde a infância. O jogador de futebol foi meu primeiro botão. Era o craque que eu acompanhava na Gazeta Esportiva, na revista Placar. Sérgio; Forlán, Jurandir, Dias e Gilberto; Édson e Nenê; Paulo, Terto, Toninho Guerreiro e Paraná formaram o meu primeiro time de botões. Depois, vieram Valdir Peres, Nelson, Chicão, Pedro Rocha, Gerson, Mirandinha, Serginho (o meu maior!) e tantos outros. Até que eu tive idade e consciência crítica para escalar o meu onze, que me acompanha até hoje: Valdir Peres, Getúlio, Estevan, Bezerra e Antenor; Chicão, Teodoro e Neca; Viana, Serginho e Zé Sérgio.
Há quem escale a zaga com Oscar e Dario Pereira. Há quem considere o maior centroavante Careca. E eu aceito e aplaudo. Mas futebol é sonho.
O capitalismo financeiro, com essa história de "futebol empresa" difundida pelas mídias corporativas, destruiu o que formava a identidade popular. Confinou, assim como fez com o carnaval, o futebol nas grades da programação das televisões. Roubou o autêntico popular.
Hoje, os jogadores agem como atores de seriados ou de telenovelas. Não se preocupam com o jogo, com a camisa que vestem nem com a torcida. Apenas interpretam, entediados, um enredo. O que querem mesmo é visualização e riqueza.
Após acompanhar pelo canal pago o jogo em que o São Paulo empatou em casa, no Morumbi, com o Coritiba, por 1 a 1, tive a certeza de que vivo no passado e de que me neguei a perceber que morreu o fenômeno que cunhou a minha identidade. O que a ditadura não matou, o capital financeiro destruiu.
Já não há mais canção de Jorge Ben ou Gilberto Gil a evocar o evento e o craque. O narrador que falava com o seu povo inexiste. O jogador que nos representava em sua fúria santa tampouco está nos gramados, hoje transformados em sala de estar de nossas mães, forradas com carpetes.
Só resta a memória, que luta contra o esquecimento, como enfatizou Milan Kundera. Se ela perecer, virá o fascismo eterno.
* Rogério Baptistini é Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho -Unesp (2001); Mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas -Unicamp (1995); Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho -Unesp (1990). Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Pesquisador com interesse nas áreas da Sociologia Brasileira, do Pensamento Político Brasileiro e do Estado e do Desenvolvimento no Brasil.
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