“Fenômica” revela história evolutiva das abelhas que o DNA não conta
Nas últimas décadas, o sequenciamento de DNA roubou a cena no estudo da evolução dos seres vivos, desvendando com precisão o parentesco entre espécies.
Mas reconstruir a história da vida exige mais do que conhecer esses vínculos, entendendo como os organismos mudaram ao longo do tempo.
Para pesquisadores da FFCLRP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto) da USP (Universidade de São Paulo), boa parte dessa resposta está na anatomia dos organismos.
Ao comparar centenas de características morfológicas de abelhas atuais e fósseis, 2 trabalhos conduzidos no FFCLRP (Laboratório de Biologia Comparada e Abelhas), coordenado pelo professor Eduardo Almeida, mostram como a fenômica —o estudo sistemático do conjunto de características observáveis de um organismo— pode complementar a genômica e trazer novas informações sobre a evolução.
“ O DNA nos mostra quem é parente de quem.
A anatomia mostra o que aconteceu nessa história ”, resume o professor.
Segundo ele, é a anatomia que “ revela como as estruturas mudaram ao longo da evolução e como essas mudanças deram origem à diversidade que observamos hoje ”.
Recém-publicados, os 2 trabalhos analisaram as relações filogenéticas (história evolutiva e relações de parentesco) entre as cerca de 650 espécies de abelhas-sem-ferrão —grupo conhecido cientificamente como Meliponini, distribuído principalmente nas regiões tropicais— e as cerca de 21 mil espécies de abelhas conhecidas no planeta.
Embora tenham objetos de estudo diferentes, ambos partiram da mesma pergunta: como reconstruir a história evolutiva das abelhas? Para respondê-la, reuniram informações da anatomia externa e interna das espécies e as analisaram em um contexto filogenético, considerando as relações de parentesco entre elas.
Almeida explica que a principal diferença entre os estudos está na escala.
Enquanto o das abelhas-sem-ferrão comparou linhagens evolutivamente mais próximas, permitindo identificar detalhes anatômicos mais refinados, o estudo com todas as abelhas buscou a diversidade do grupo para compreender seus grandes padrões evolutivos.
Um revelou detalhes; o outro, uma visão panorâmica da evolução das abelhas.
Entre os resultados, a abordagem fenômica permitiu construir uma matriz de 375 caracteres codificados de todos os gêneros e subgêneros da tribo Meliponini, além da caracterização das tribos extintas Melikertini (fortemente sustentada como grupo-irmão das abelhas-sem-ferrão) e Proplebeia dominicana.
O estudo comparativo das abelhas como um todo incluiu 394 caracteres, dos quais 11% são totalmente novos e 68% reinterpretados, abrangendo tanto a anatomia externa (73%) quanto a interna (27%).
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