União com esquerda radical pode viabilizar governo de extrema direita na Alemanha após vitória em eleição estadual
Ainda é incerto quem governará o estado alemão da Saxônia-Anhalt, que neste domingo (6) deu quase 44% dos votos ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD). A votação garantiu ao grupo 39 assentos no Parlamento estadual, sem alcançar os 42 necessários para formar maioria absoluta. Mas, ainda na noite de domingo, surgiu uma possibilidade: o pequeno partido de esquerda radical BSW, que conquistou cinco cadeiras, disse estar aberto a negociações que possam garantir uma mudança de governo no estado.
O BSW, cujo nome completo é Aliança Sahra Wagenknecht - Razão e Justiça, tem apenas dois anos de existência e é uma dissidência do partido de esquerda Die Linke, que, por sua vez, terminou a eleição com oito assentos no Parlamento estadual e se opõe frontalmente à AfD.
Até o início da votação, muitos acreditavam que o BSW não conseguiria sequer atingir a cláusula de barreira, que exige votação mínima de 5%. O bom desempenho lhe garantiu não só a entrada no Parlamento, mas também uma posição-chave: nenhum grupo conseguirá formar maioria sem as cinco cadeiras conquistadas pelo partido.
A principal candidata do BSW na Saxônia-Anhalt, Claudia Wittig, disse estar aberta a conversar com a AfD para promover uma mudança de governo no estado , atualmente controlado pela CDU, partido conservador do chanceler Friedrich Merz. Ela descarta formar uma coalizão formal para eleger o candidato da AfD, Ulrich Siegmund, mas diz aceitar uma colaboração para eleger outro nome contra o atual governador da CDU, Sven Schulze.
Na manhã desta segunda-feira, outro dirigente local do BSW, Thomas Schulz, deixou mais claro como seria essa "colaboração": o partido vai se abster caso haja uma terceira votação no Parlamento para escolher o governador.
Na Saxônia-Anhalt, caso não se alcance maioria absoluta em duas votações seguidas para escolher o governador, o que é bastante provável no cenário atual, na terceira votação basta maioria simples. Com a abstenção do BSW, a AfD elegeria Ulrich Siegmund ao cargo com facilidade, contando com sua maioria simples de 39 votos.
Se essa colaboração se confirmar, será a primeira vez que um partido alemão romperá o chamado Brandmauer , cordão de isolamento imposto à AfD , para viabilizar um governo estadual liderado pelo partido de extrema direita.
No campo ideológico, o que diferencia o BSW dos demais partidos de esquerda é principalmente a pauta de costumes. O partido rejeita a chamada "agenda woke" e as pautas identitárias, incluindo posições mais favoráveis à imigração, mas abraça amplamente a agenda econômica de esquerda, com a defesa dos trabalhadores, dos sindicatos e de uma forte presença do Estado na economia.
O que une os dois partidos de extremos opostos, AfD e BSW, é a defesa do fim das sanções à Rússia e de uma aproximação com Moscou.
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