‘Precisamos desconstruir a ideia de que os desastres são naturais’, afirma pesquisadora
Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Inundações, deslizamentos, secas, incêndios florestais e ondas de calor estão se tornando mais intensos e frequentes. É um efeito das mudanças climáticas causadas pela ação humana. Apesar de ser um fato estabelecido pela ciência, há ainda uma resistência em enxergar esses eventos como parte de um processo construído socialmente e não como fatalidades inevitáveis. Para a pesquisadora Patrícia Mie Matsuo , professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), diante desse cenário, torna-se urgente construir uma cultura de prevenção de riscos socioambientais, e a educação é o eixo estratégico para essa transformação.
“Precisamos desconstruir a ideia de que os desastres são naturais. Eles são processos sociais construídos a partir da desigualdade, da pobreza e da vulnerabilidade. Quando chamamos de ‘natural’, parece castigo divino, uma sina da qual não podemos escapar. Sem esse entendimento fica difícil fortalecer uma cultura de prevenção e redução de riscos”, afirmou Matsuo, em entrevista à Agência FAPESP . A conversa ocorreu durante o 6º Workshop do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), realizado nos dias 23 e 24 de setembro, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Vencedora do Prêmio Capes de Tese 2023 na área de Ensino, com a análise de projetos de prevenção de desastres em 238 escolas brasileiras, Matsuo concluiu o doutorado em Ensino de Ciências na Universidade de São Paulo (USP) e realizou pós-doutorado no Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP), com apoio da FAPESP. Atuou como pesquisadora no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e como gestora técnica na elaboração dos Planos de Contingência para Escolas Resilientes da Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul, após as enchentes de 2024.
Na entrevista a seguir, ela defende que o enfrentamento de desastres vai além de obras emergenciais e que a escola tem um papel estratégico por ser um espaço central na sociedade. “Alertas e ações de recuperação são importantes, mas não bastam. Sem trabalho preventivo e coletivo com as comunidades, não há transformação real do território.”
Agência FAPESP – Você pesquisa educação e prevenção de desastres. O que gostaria que fosse incorporado à consciência coletiva sobre o tema? Patricia Matsuo – Que os desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul ou a seca na Amazônia, não são meramente naturais. Eles são processos sociais construídos a partir da desigualdade, da pobreza e da vulnerabilidade social. Meteorologistas, climatologistas e outros cientistas já sabem que existe um papel humano nesses eventos extremos. É preciso, portanto, um olhar crítico, pois, quando adotamos o termo ‘natural’, parece que é um castigo divino, uma sina. Se eu entendo que é um castigo divino, eu não posso fazer nada, preciso me conformar. Um dos pontos principais da minha pesquisa é tentar desconstruir essa ideia.
Agência FAPESP – Isso é ainda mais importante em ano de super El Niño. Matsuo – Importante agora e depois também, pois o El Niño é só um combustível a mais na fogueira que já está ardendo, que são as mudanças climáticas.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em agencia.fapesp.br — o conteúdo pertence a Agência FAPESP.