Acesso à água e mineração: o impacto da Sigma no Jequitinhonha (MG)
Nas comunidades de Ponte do Piauí, Santa Luzia, Piauí Poço Dantas e Taquaral Seco, na zona rural dos municípios de Araçuaí e Itinga, no Médio Jequitinhonha, em Minas Gerais, a relação do território com a mineração está estampada para quem quiser ver. Basta um olhar para a paisagem para avistar as pilhas de estéril de lítio.
E como se não fosse suficiente, na casa das famílias, uma caixa d’água de mil litros funciona quase como um outdoor , com o logotipo da mineradora Sigma Lithium, cuja produção comercial de concentrado de lítio na região começou em 2023. Segundo a população, o equipamento foi cedido mediante a assinatura de um termo de empréstimo.
Uma vez por mês, um caminhão-pipa enche a caixa, iniciativa que faz parte de um programa da mineradora chamado Água para Todos. Um relatório do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) sobre os impactos ambientais e os danos coletivos da Sigma nas comunidades do entorno do empreendimento Grota do Cirilo indica que o abastecimento é feito com água potável da Copasa Serviços de Saneamento Integrado do Norte e Nordeste de Minas Gerais S.A. (Copanor), doada pelas Prefeituras.
A regularidade e a quantidade não variam de acordo com o tamanho da família. Na casa de José Uelton de Jesus, conhecido como Chico, por exemplo, o racionamento faz parte do cotidiano. A família, residente em Piauí Poço Dantas (Itinga), é composta por sete pessoas, entre elas duas crianças. Ou seja, a quantidade equivale, em média, a 4,76 litros diários de água por pessoa para consumo direto e uso na cozinha.
Para comparar, a Organização das Nações Unidas define que o acesso à água potável, para ser considerado razoável, é de pelo menos 20 litros por pessoa por dia, provenientes de uma fonte localizada a até um quilômetro da residência do usuário. Ter que manejar o gasto de água potável é a realidade de muita gente, pois mesmo nas famílias que possuem apenas duas pessoas, a quantidade só chega a cerca de 16 litros por dia.
Ana Claudia de Souza e Jessica Almeida, moradoras da mesma comunidade, também precisam racionar para as necessidades básicas das suas casas. E não é só nesse aspecto que a relação delas com a água foi impactada. Próximas desde crianças, elas contam que tomar banho no Rio Piauí fazia parte de suas rotinas. Com carinho, se lembram da atividade quase como um ritual antes da escola. “E hoje em dia a gente vê que os filhos da gente perderam totalmente essa liberdade de conhecer a cultura nossa”, conta Jéssica.
Segundo elas, a Sigma informou para as comunidades que a água do ribeirão está poluída por esgoto. No entanto, é essa água que a comunidade precisa usar para tomar banho e lavar as roupas, pois a quantidade fornecida pela empresa é insuficiente.
Muitas casas das comunidades da região, que convivem com a escassez hídrica, possuem cisternas construídas por meio do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), iniciativa brasileira criada em 2003 pela Articulação do Semiárido Brasileiro (ASA).
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