‘Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha’ faz da imaginação um caminho para curar ausências
Há algo que remete ao cinema de David Lynch ( Twin Peaks ) na maneira como a diretora Janaína Marques Ribeiro dissolve as fronteiras entre sonho e realidade em Fiz um Foguete Imaginando Que Você Vinha , filme que Rolling Stone Brasil conferiu na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo , transformando o inconsciente em um território onde tudo parece possível, mesmo quando quase nada faz sentido.
O que começa como uma espécie de Thelma & Louise (1991), com duas mulheres cometendo crimes e fugindo pelas estradas, logo abandona qualquer compromisso com a lógica convencional para mergulhar em uma experiência tão lúdica quanto emocional.
Mas, por trás de toda essa inventividade, existe uma história bastante simples e universal: a de uma filha que encontra na imaginação a possibilidade de viver ao lado da mãe aquilo que a realidade lhe negou.
A partir de uma história de Taís Monteiro e Pedro Cândido , o longa acompanha Rosa ( Verônica Cavalcanti , Paloma ), uma mulher de cinquenta e poucos anos que, durante uma ressonância magnética, é orientada a acessar uma memória feliz.
Incapaz de encontrar essa lembrança, ela decide inventá-la.
É assim que surge uma viagem imaginária ao lado da mãe, Dalva ( Luciana Souza , Bacurau ), uma mulher livre, irreverente e que passou parte da vida afastada da filha depois de ser presa por matar um homem prestes a cometer um feminicídio.
Crescida sob o peso dessa ausência, Rosa transforma a mãe em companheira de estrada e cria para ambas uma aventura que nunca aconteceu.
Mais do que revisitar o passado, ela tenta reescrevê-lo, encontrando na fantasia uma maneira de preencher os espaços deixados pela saudade, pela culpa e por tudo aquilo que as duas não puderam compartilhar.
Há um delicioso entrecruzamento entre forma e conteúdo que faz jus tanto ao que está sendo contado quanto à maneira escolhida para contar.
Janaína constrói gradualmente a consciência de que estamos diante de um sonho, mas sem recorrer a explicações ou estabelecer limites claros para esse universo.
Um vendedor de água desaparece repentinamente, uma conversa de bar apresenta falas reproduzidas de trás para frente e, entre um plano e outro, copos de cerveja ora aparecem cheios, ora pela metade, enquanto garrafas mudam de posição ou quantidade sem qualquer justificativa.
São pequenas rupturas de continuidade que, longe de constituírem erros, tornam-se parte fundamental da linguagem do filme.
Em colaboração com a direção de arte de Patrícia Passos , a cineasta transforma essas “inconsistências” em manifestações de uma mente que não obedece às regras do espaço, do tempo ou da causalidade.
Como nos sonhos, aceitamos o absurdo porque, naquele instante, ele parece perfeitamente natural.
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em rollingstone.com.br — o conteúdo pertence a Rolling Stone Brasil.