Embate no STF ajudou candidatura de Flávio Bolsonaro?
O recente e agudo embate no Supremo Tribunal Federal (STF), desencadeado pelas investigações e relatórios cruzados divlgados pelos ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes sobre o banqueiro Daniel Vorcaro, levantou questionamentos sobre o uso político do tribunal no contexto eleitoral.
Desde o início do mês, quando Mendonça expôs o colega de Corte vazando supostos diálogos de Moraes com o dono do Banco Master, um cisma se estabeleceu, colocando os ministros em polos opostos. Mendonça guarda notória proximidade com a família Bolsonaro — foi indicado à Corte por Jair, e guarda amizade com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Ao BdF Entrevista , o jurista Vitor Marques adota cautela ao comentar a intencionalidade das ações do ministro. “Eu não vou dizer, com toda franqueza e cautela, que o ministro deliberadamente agiu para influenciar na campanha de Flávio Bolsonaro. Mas as consequências dos seus atos acabaram por beneficiar, sim, a campanha de Flávio. Nós assistimos, nos últimos dias, a um crescimento, ainda que pequeno, do Flávio Bolsonaro nas pesquisas”, afirma.
Além disso, destaca o ineditismo do episódio. “Os ritos foram sendo definidos na nossa frente. Não é um expediente previsto, porque ninguém nunca cogitou a hipótese de ministros da Suprema Corte serem investigados por um possível envolvimento com um banqueiro”, avalia.
Marques recordou que o próprio Flávio Bolsonaro figura como investigado por solicitar recursos a Vorcaro, mas ressaltou que a apuração sobre o envolvimento de outros integrantes da Suprema Corte gerou um debate seletivo na sociedade, afirmando que “tem um lado da sociedade que só olha o que interessa”.
Nesse sentido, o jurista ironiza que, muitas vezes, parece haver dois Daniel Vorcaro distintos: um que tem o dinheiro limpo e outro sujo. “O mesmo Daniel Vorcaro, o mesmo Banco Master, que financiou viagens do deputado federal Nikolas Ferreira, que passou R$ 130 milhões para o financiamento do filme do Dark Horse, do ex-presidente Bolsonaro, quem pede dinheiro para ele é o hoje investigado Flávio Bolsonaro. Só que esse mesmo Daniel Vorcaro, eventualmente, pode, sim, ter se relacionado com ministros da Suprema Corte, ter feito o contrato com a esposa do ministro Alexandre de Moraes”, afirma.
Segundo o jurista, a sociedade quer esclarecimentos de Moraes e de outros ministros do STF que tenham se relacionado com o banqueiro, e isso é legítimo. Mas ele observa que, diante de uma crise de institucionalidade e credibilidade da Corte, muitos aproveitadores aparecem desejando o caos. E o fator mobilizador dessa parcela da sociedade é o desejo de vingança. “É uma parcela da sociedade extremista que está aproveitando essa oportunidade para pedir a cabeça do ministro Alexandre de Moraes em praça pública. Não por eventual ato de corrupção que ele ou alguém do seu entorno tenha praticado, mas pelo que ele fez na condução dos processos contra o Estado Democrático de Direito”, avalia.
Assim, em vez de consolidar uma vantagem direta para Flávio Bolsonaro, o conflito gerou ruído e instabilidade que impactam o ambiente eleitoral como um todo.
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