A cúpula dos Brics na Índia: resultados políticos e financeiros
Economista, foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou pela editora LeYa o livro O Brasil não cabe no quintal de ninguém, segunda edição, 2021.
Os líderes dos Brics reuniram-se há pouco em Nova Delhi para sua cúpula anual. Não por acaso, o evento atraiu atenção mundial. Os Brics constituem um dos principais mecanismos internacionais atualmente existentes, já superando em importância e efetividade dois grupos do mesmo tipo, mais antigos – o G7 e o G20.
O peso dos Brics decorre da dimensão dos seus integrantes. Dele fazem parte, os dois países mais populosos do planeta (Índia e China); três dos cinco maiores países em extensão territorial (Rússia, China e Brasil); e cinco das maiores economias do mundo (China, Índia, Rússia, Indonésia e Brasil). Outra característica marcante – o grupo inclui os três países que estão em confrontação com o Ocidente coletivo – a China, a Rússia e o Irã. A movimentação dos Brics é acompanhada com preocupação em Washington e nas capitais europeias. Donald Trump já ameaçou os Brics diversas vezes, tentando assustar os integrantes mais medrosos ou mais vulneráveis do grupo.
A cúpula de Nova Delhi foi bem-sucedida. Há pelo menos três motivos político-diplomáticos para dizer isso. Primeiro, o comparecimento. Quase todos os líderes dos 10 países do grupo – inclusive Vladimir Putin e Xi Jinping – estiveram presentes. As exceções foram os líderes do Brasil e dos Emirados Árabes Unidos. O presidente Lula, em plena campanha pela reeleição, não pôde fazer a longa viagem. A sua ausência foi certamente sentida – Lula é um dos fundadores dos Brics e vem tendo participação ativa no grupo – mas todos entenderam, claor, que a questão era de força maior.
Segundo motivo: os 10 países conseguiram chegar a uma declaração comum, algo que nem sempre acontece nessas reuniões internacionais. Não é incomum que divergências em questões importantes impeçam um comunicado conjunto. Foi um desafio e tanto. O comunicado teve nada menos que 140 parágrafos, cobrindo todos os temas relevantes para o mundo e para os Brics. É notável que um grupo heterogêneo, do qual são membros, por exemplo, Irã e Emirados Árabes Unidos, países eminentemente antagônicos, tenha chegado a uma declaração conjunta tratando, entre muitos outros temas espinhosos, da guerra contra o Irã e da tragédia humanitária na Palestina.
Terceiro motivo, este talvez o mais importante: em Nova Delhi, confirmaram-se sinais anteriores de aproximação entre China e Índia. Houve longa reunião bilateral entre Narendra Modi e Xi Jinping, dando sequência a alguns movimentos de pacificação ocorridos ao longo de 2026. Isso é de significado estratégico, não apenas para os dois países, mas também para os Brics e para o Sul Global como um todo. De fato, as divergências e tensões entre China e Índia, motivadas principalmente por disputas territoriais nos Himalaias, vêm obstruindo a atuação dos Brics há vários anos. As disputas são antigas e culminaram numa guerra entre os dois países em 1962, vencida pela China.
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