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O que teria de acontecer para você mudar de voto?

Folha de S.Paulo ·
O que teria de acontecer para você mudar de voto?

Professor catedrático convidado na NOVA School of Business and Economics, em Portugal. Nomeado Young Global Leader pelo Fórum Econômico Mundial, em 2017

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A dez dias do primeiro turno, talvez estejamos fazendo as perguntas erradas. Para influenciar o resultado eleitoral, escarafunchamos, com um zelo de beato à procura do pecado, todos os podres dos candidatos.

Esperamos que no celular de Daniel Vorcaro se descubra, finalmente, a indecência-rainha; que no STF rebente mais um cano de esgoto; que apareça um maço de notas numa cueca parlamentar, um charuto salvadorenho fumado na companhia de algum pilantra, um zero a mais numa conta bancária nas ilhas Caimã, um jatinho registrado em nome da sogra já enterrada. E, quando nada disso produz o terremoto eleitoral prometido, quando a acumulação de casos —tantos, tantos, tantos— não tem impacto nas pesquisas, o que fazemos? Voltamos a remexer no lixo.

Lembramo-nos de Miriam Cordeiro no horário eleitoral, dos acusados da Máfia dos Sanguessugas que não conseguiram se reeleger, de Roseana Sarney fulminada pelo caso Lunus , do estrago que o caso Erenice causou à candidatura de Dilma, e concluímos que, sim, há de existir um escândalo derradeiro, qualquer coisinha suficientemente sórdida para fazer alguém mudar o voto.

Mas o Brasil de antigamente não é o Brasil de hoje. A política deixou de ser opinião, sequer causa, e passou a ser identidade. Mudar o voto significa rever quem se é. Para uma grande lasca de brasileiros, a política não é escolher entre programas de governo. Quase ninguém quer saber o que pensa o Flávio sobre a reforma da previdência ou que novas medidas vai o Lula adotar para enxugar a dívida pública . A escolha eleitoral serve, sobretudo, para confirmar quem o eleitor acredita ser. Quando um Lucas qualquer vota no Flávio, o Lucas vota confiantemente nele próprio. Flávio é apenas o corpo provisório de uma identidade maior que existia antes dele e provavelmente sobreviverá a ele.

A neuropolítica, campo da neurociência que estuda o comportamento político, oferece uma pista interessante sobre esse mecanismo. Em estudo publicado em janeiro deste ano na Scientific Reports , pesquisadores expuseram 43 pessoas fortemente identificadas com uma posição política a argumentos contrários às suas crenças enquanto observavam sua atividade cerebral por ressonância magnética funcional. Os participantes alteraram mais facilmente crenças não políticas do que políticas, e o confronto com convicções políticas produziu maior atividade em regiões da chamada default mode network (rede neural de modo padrão) associadas ao processamento autorreferencial e à introspecção. Quanto mais uma posição se confunde com identidade, maior o custo psicológico e social de abandoná-la.

As identidades constroem-se muitas vezes pelo avesso e pela rejeição. Sabemos quem não somos, de quem não gostamos e com quem não queremos ser confundidos antes de definirmos, positivamente, aquilo que somos. Muitas nações construíram a sua identidade em oposição a uma ameaça externa —um vizinho, um império ou a potência que as colonizara.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.

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