Ex-ministro da Defesa da Ucrânia faz aposta arriscada ao entrar na arena eleitoral
O ex-ministro da Defesa da Ucrânia Mykhailo Fedorov, recém-destituído, surpreendeu a todos ao defender a realização de eleições em tempos de guerra ? uma medida arriscada que preocupou até mesmo seus próprios apoiadores, reunidos em frente ao Parlamento em Kiev na quarta-feira.
Fedorov, um defensor fervoroso da inovação tecnológica e que liderou diversas reformas nessa área nas Forças Armadas, foi destituído em julho durante uma reformulação ministerial que dividiu a nação e desencadeou protestos sem precedentes em seu apoio.
Aproveitando a onda de popularidade, Fedorov fez um discurso na terça-feira no qual criticou duramente o governo, selando assim o rompimento dramático com o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky.
Enquanto o Parlamento aprovava a nomeação de seu sucessor, Yevhen Khmara, dezenas de pessoas se reuniram em uma última tentativa de expressar sua insatisfação com a destituição de Fedorov.
"Eu vi e fiquei decepcionada", disse Yevgeniia, uma das manifestantes, referindo-se ao seu discurso crítico. "O lado bom de Fedorov é que ele era um administrador, não um político. E agora ele deixou de ser administrador para se tornar político", afirmou à AFP.
Com o discurso, Fedorov se posiciona como um candidato político e desafia o consenso contrário à realização de eleições durante a guerra ? uma medida arriscada em um país onde a confiança nos políticos é baixa, mas onde a legitimidade de Zelensky como líder em tempo de guerra permanece amplamente incontestável.
O vídeo de Fedorov, gravado um mês após sua destituição, apresenta uma crítica contundente ao sistema que ele mesmo um dia tentou reformar.
A Ucrânia tem sido abalada por inúmeros escândalos de corrupção. O mais recente levou à demissão de um assessor presidencial na quarta-feira.
Erradicar a corrupção "é uma questão de nossa capacidade de sobrevivência", disse Fedorov. "Vivemos uma crise sistêmica de governança", acrescentou.
Fedorov era um aliado de longa data de Zelensky e trabalhou com o presidente desde que ele assumiu o cargo, em 2019.
Segundo o especialista Volodimir Fesenko, o vídeo marcou uma ruptura clara na aliança.
"A mensagem de vídeo, divulgada ontem à noite, é sem dúvida uma tentativa de assumir o papel de líder da oposição", observou.
No entanto, Fesenko acredita que o desafio não era dirigido a Zelensky pessoalmente, mas sim "ao que poderia ser chamado de 'Zelensky coletivo'".
A mensagem de Fedorov é particularmente ousada, dado o contexto de guerra em que o país se encontra desde o início da invasão russa, em fevereiro de 2022.
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