A personalidade é engessada ou dinâmica? O que o DNA revela (e não revela)
Afinal, nós já nascemos prontos ou somos inteiramente moldados pelas experiências da vida? Essa é uma daquelas perguntas antigas que insistem em voltar aos consultórios e às conversas do dia a dia.
De um lado, há quem acredite que a nossa personalidade é uma folha em branco, preenchida conforme o que experimentamos, nossos tropeços e aprendizados no mundo.
Do outro, estão os que sentem que tudo não passa de um script biológico pré-determinado, onde cada reação nossa já veio carimbada de fábrica.
Em última análise, tentar responder a isso é tentar definir o próprio significado de ser humano.
Essa discussão histórica acaba de ganhar um capítulo significativo com um estudo monumental publicado na revista científica Nature .
Para entender o pano de fundo desse trabalho, vale lembrar como a ciência define a nossa estrutura psicológica.
Há algumas décadas, pesquisadores perceberam que a nossa forma de ser pode ser organizada em cinco grandes eixos principais, o chamado Big Five .
Pense neles como cinco botões de ajuste: a Amabilidade (empatia e cooperação), a Conscienciosidade (disciplina e foco), o Neuroticismo (instabilidade emocional e vulnerabilidade ao estresse), a Extroversão — que vai muito além de “se dar bem com as pessoas”, tratando-se da nossa busca por estímulos e recompensas sociais — e a Abertura à Experiência , que envolve uma curiosidade ampla pela vida, desde o gosto pela arte até o apetite por desafios intelectuais.
Como já discutimos em uma coluna anterior sobre envelhecimento cognitivo, a forma como esses traços se arranjam ao longo do tempo tem impacto sobre nossa saúde mental e a capacidade do cérebro de se proteger contra o declínio cognitivo.
Continua após a publicidade Mas como os cientistas conseguem medir o peso real do DNA nessa equação? A ferramenta utilizada é o GWAS (Estudo de Associação do Genoma Amplo), uma varredura estatística que cruza milhões de “letrinhas” do código genético com as respostas dos participantes a testes padronizados de personalidade.
Para a nova análise, centenas de cientistas de diversas instituições — com forte presença de universidades americanas e europeias — uniram forças em um consórcio.
Eles realizaram uma meta-análise gigantesca (o método considerado padrão-ouro na ciência por integrar e reanalisar estatisticamente o conjunto de dados de múltiplos estudos independentes).
Foram combinadas nada menos que 46 pesquisas prévias! Pode-se, dessa forma, entre 610 mil e 1,14 milhão de pessoas por traço analisado, incluindo populações de ancestralidade europeia e africana — um avanço crucial, já que a maioria das pesquisas genéticas do passado focava quase exclusivamente em amostras europeias.
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