De 'Argh' a 'Zema', um abecedário do pôr do sol do que somos
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Argh. O falatório insano vai até outubro. Depois haverá balanços, especulações, lobbies, a roleta dos ministeriáveis e, no ano que vem, a posse dos eleitos. Política cansa. Melhor esperar o Carnaval para governar.
Anticomunismo. Lula avisou que, "como estamos com o barco garantido, é hora de dar um salto de qualidade". Já que não há mais anticomunistas alfabetizados, não escarraram nele por usar uma expressão criada por Engels. Mas a física, sempre reacionária, insiste que barcos não saltam.
Bolsonaro. Calado e invisível, é um ectoplasma, o que tem utilidade. Não há cristãos sem pagãos, patrões sem trabalhadores, deuses sem demônios, esquerda sem direita.
Candidato. Vem do latim "candidatus", cândido, alvo. Em Roma, os candidatos punham togas brancas para mostrar que não tinham mancha, estavam limpos. Os candidatos do centrão têm horror à cândida, se enfeitam com as encardidas penas da asa da graúna.
Chapéu. Em vez do velho refrão "Lula-lá", a nação petista adotará o jingle velhaco da campanha de 1950 de Getúlio, precursor do marketing chapeleiro: "O sorriso do velhinho/ faz a gente trabalhar".
Fake news. Não cabe à inverdade universal se contrapor à mentira particular.
Grotões. Elege-se um deputado federal em Roraima com 49 mil votos. Em São Paulo, é preciso dez vezes mais, meio milhão. Os 578 mil eleitores do Amapá têm três senadores; os 17 milhões de mineiros também. A democracia irrepresentativa vai bem, obrigado.
Isonomia. Se Fábio Luís virou Lulinha , Flávio Bolsonaro devia ser chamado de Bolsonarinho.
Ilusões. A opressão dos pobres pelos ricos, o aniquilamento da natureza, a degradação das cidades, as gangues entranhadas no Estado, tudo o que tenha a ver com saúde, segurança e educação —nada mudará rápida e radicalmente na eleição. A lenta queda livre num abismo sem fundo perdurará até que, ao arrepio das instituições, os brasileiros botem para quebrar.
Marqueteiros. Estão em baixa. Comprar baciadas de influencers é mais barato.
Pluralismo. "A verdade é una e o erro é múltiplo", disse Simone de Beauvoir. "Não espanta que a direita professe o pluralismo".
Polarização. Existe desde que o centrão ateniense aprovou que Sócrates tomasse cicuta. Como sói acontecer, no segundo turno a situação estará de um lado e a oposição do outro.
Pôr do sol do que somos. Fernando Pessoa disse algo cabível à eleição: "A ânsia de coisas impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Estes meios-tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos."
Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.folha.uol.com.br — o conteúdo pertence a Folha de S.Paulo.