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Ser como Jesus e não como Davi

Brasil de Fato ·
Ser como Jesus e não como Davi

Psicoterapeuta, professora, cristã e ativista dos direitos de crianças e adolescentes.

Eu não sei como foi sua infância e adolescência — espero que tenham sido boas. As minhas foram na igreja. Cresci entre as paredes brancas e a agenda definida de cultos e ensaios e escola bíblica dominical (EBD). Sinto que a igreja foi um espaço protetivo para mim de muitas maneiras. Mas queria conversar sobre as maneiras que a igreja silenciou e nunca me comunicou sobre proteção.

Eu sempre ponderei que a igreja me protegeu de muitas violências — as externas e até letais. E acreditava que isso era tudo o que importava. Eu fui uma menina negra, crescendo num bairro pobre de uma cidade mediana do Brasil. A violência estava ali, a um passo. As más decisões também. Cresci repetindo para mim mesma que a igreja me protegia. Hoje discordo disso.

Crescendo entre a EBD e o círculo de oração infantil, ouvi muitas histórias fantásticas que apontavam para um Deus que fazia intervenções sobrenaturais. Aprendi sobre o Deus que entra num forno aceso e livra rapazes de se queimarem; aprendi sobre jumentos falando com humanos teimosos e tacanhos. Mas nunca fui ensinada sobre o que Deus pensava sobre o meu cotidiano.

Nunca ouvi sobre Deus intervindo em coisas eminentemente humanas. Nunca soube a opinião de Deus sobre o alcoolismo e outros elementos que resultam em terror nas casas e a violência psicológica decorrente. Sendo criança e depois sendo adolescente, eu nunca fui ensinada na igreja sobre violência e nem que Deus ou a igreja poderiam ser lugares seguros para mim ou para minha família.

Quando me tornei adolescente, passei a viver outra experiência violenta — e não conseguia defini-la como violência, mas eu sentia a revolta do meu corpo sempre que era submetida a esta experiência, me sentia constrangida e muito desconfortável. Que experiência era essa? A partir dos 12 ou 13 anos, passei a ouvir cada vez mais o discurso que eu precisava namorar, que depois dos 18 anos eu ficaria encalhada. Havia um peso do tempo contra mim.

Esse discurso, apesar de me deixar mal, não me fez capitular a ele — como aconteceu com muitas amigas — porque meus pais tinham um discurso mais forte da importância do foco no estudo. Mas o medo de ficar encalhada era terrível. Eu tinha pretendentes que foram se tornando escassos depois que fiz 18 anos.

Porque estou contando essa trajetória tão comum? Por isso mesmo, porque ela é comum. As igrejas brasileiras refletem a realidade da sociedade brasileira. Sabemos pouco sobre como proteger crianças e adolescentes da violência, especialmente as violências mais recorrentes para esse público: violência sexual (assédio, abuso, exploração), violência psicológica e violência física.

Impedimos nossas adolescentes de se desenvolver plenamente e imputamos a elas expectativas e relacionamentos que são difíceis até para pessoas adultas.

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Resumo agregado pelo 5News a partir do feed público do veículo. A matéria completa, com todo o contexto, está em www.brasildefato.com.br — o conteúdo pertence a Brasil de Fato.

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