Boicote, demissão e listas: a vingança bolsonarista contra o voto popular
Encerrada a apuração, parte de quem perdeu nas urnas decidiu prolongar a disputa por outros meios.
Circulam listas de comércios a boicotar, convocações para trocar de prestador de serviço e uma ordem que resume o espírito da campanha: “Você tem uma empregada doméstica que é petista? Mande embora”.
Uma deputada eleita pelo PL no Paraná chegou a defender publicamente a demissão de funcionários que votaram no candidato vencedor e passou a ser investigada.
O nome que se dá a isso costuma ser indignação.
O nome correto é inconformismo com a democracia.
Quem não aceita o resultado de uma eleição limpa e tenta cobrar o voto alheio com o emprego, a clientela ou o sustento do vizinho não está protestando contra um governo.
Está dizendo que a soberania popular só vale quando concorda com ele.
O bolsonarismo ensinou o país a desconfiar das urnas, a tratar adversários como inimigos e a ver na derrota uma fraude.
O boicote pós-eleitoral é herdeiro direto dessa pedagogia, mas não pertence só a ela.
Todo projeto político que transforma o resultado das urnas em autorização para retaliar quem votou diferente compartilha o mesmo vício autoritário: a ideia de que a cidadania dos outros depende de permissão.
A escolha da empregada doméstica como alvo não é acaso.
Segundo a PNAD Contínua do quarto trimestre de 2025, divulgada pelo Ministério do Trabalho e Emprego, 92% das pessoas no trabalho doméstico remunerado são mulheres, e 68% delas são negras.
A mensagem é antiga e conhecida: a mulher pode cuidar da casa e dos filhos de outra família, mas sua autonomia política só será tolerada enquanto não contrariar quem paga o salário.
É a casa-grande tentando votar pela senzala.
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