França caminha para uma possível crise da dívida e acende alerta para o mundo
LONDRES — A França foi tomada por turbulências, com estudantes nas ruas para protestar contra cortes nas escolas.
Os investidores também se rebelam contra o governo ao colocar em dúvida a capacidade do país de administrar sua enorme dívida.
A França emergiu como o epicentro europeu da turbulência global nos mercados de títulos e serve como um alerta para políticos em todo o mundo que precisam lidar com custos de financiamento mais altos.
Esse contexto financeiro perigoso forma o pano de fundo dos protestos.
Na quinta-feira, pela segunda vez em uma semana, estudantes do ensino médio e seus apoiadores foram às ruas em diversas cidades francesas exigindo mais professores e a reforma de prédios escolares deteriorados.
A alta das taxas de juros expõe a vulnerabilidade de países com níveis elevados de endividamento e déficits persistentes.
Quando os governos precisam gastar mais com o pagamento da dívida, sobra menos dinheiro para outras prioridades, como melhorar escolas, construir moradias ou cortar impostos, o que pode empurrar eleitores frustrados para as ruas ou para partidos populistas.
“Essas altas nos rendimentos dos títulos têm implicações muito reais”, disse Mahmood Pradhan, pesquisador associado da Bruegel, centro de estudos sediado em Bruxelas, e ex-diretor-adjunto do departamento europeu do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Em um cenário extremo, a situação pode se transformar em uma espiral autorrealizável: políticos fazem mais promessas para agradar cidadãos insatisfeitos, o que leva a mais endividamento e, por consequência, assusta investidores, que passam a exigir juros ainda maiores para continuar comprando títulos públicos.
Leia também Títulos da França têm pior década desde 1803 e abalam mercado: o que acontece? Investidores exigem cada vez mais para emprestar ao governo francês, e a desconfiança já se espalha para outros países europeus, em meio à alta dos juros também nos EUA A França mostra como a situação pode se deteriorar rapidamente quando o sentimento dos investidores se torna negativo.
Nesta semana, o rendimento dos títulos franceses de 10 anos chegou perto de 5%, a taxa mais alta desde 2002.
Mais preocupante, outro indicador passou a chamar atenção: o chamado spread entre os títulos de 10 anos da França e da Alemanha.
Essa diferença reflete o prêmio exigido pelos investidores para deter dívida francesa em vez de títulos alemães, considerados os mais seguros da Europa.
Recentemente, esse spread atingiu o maior patamar desde 2012, após uma aceleração impressionante no último mês.
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