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Feminismo de Dolly Parton mudou para sempre o mundo da minha mãe

UOL Notícias ·
Feminismo de Dolly Parton mudou para sempre o mundo da minha mãe

Professor da Universidade Federal do Paraná e membro do conselho curatorial do Museu da Língua Portuguesa, é autor de 'Latim em Pó'

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A minha mãe tinha uma montoeira de irmãs. Ao longo da vida da dona Iracema, "as meninas" sempre foram meio autossuficientes como amigas, focos de fofoca, alívio, alérgeno, patógeno e cura.

Mas ela teve suas amizades em outros lugares. Por exemplo, na escola onde trabalhou como professora de educação infantil. E de vez em quando, por lá, surgia alguma pessoa nova (normalmente nova também em idade) que dava uma sacudida na pasmaceira curitibana do grupo e gerava uma passageira noção de integração, de sororidade. Aí coisas aconteciam.

Numa dessas situações, eu lembro que ela foi ao cinema (pelo que me informa a internet, isso deve ter sido em 1981) para ver "Como Eliminar Seu Chefe", com Jane Fonda , Lily Tomlin e Dolly Parton .

Uma coisa que precisa ser dita é que dona Iracema falava. Muito e com muito gosto. Conversadeira. Empolgadíssima.

E sempre incluiu os dois filhos em tudo que fez. Reformar uma cama, enrolar lã de uma peça de crochê que tinha que desmanchar (nunca vi alguém fazer crochê com a precisão e a velocidade da minha mãe: ainda consigo ouvir o zunido constante da agulha enquanto ela contava pontos em silêncio e via televisão).

É claro, portanto, que no dia seguinte eu e o meu irmão Rogerio ouvimos toda a história da noitada com as amigas. E a história do filme, que fomos ver só em VHS, bem depois.

Tinha sido assim com vários outros filmes e com inúmeras canções da vida, do passado, da memória dela. E que hoje são nossas.

Deve ter sido assim também com o último filme que eu vi com ela, no último passeio que nós dois fizemos juntos, sozinhos: ela deve ter contado pro Rogerio no telefone.

Minha mãe sempre disse que nunca quis ter uma filha, porque sabia que ser mulher era uma espécie de condenação. Isso, claro, não a impediu de enlouquecer de felicidade quando a minha filha nasceu.

Mas o fato é que o primeiro fiapo de feminismo que eu ouvi na vida veio dela. Uma mulher que nunca se encaixou em muitas das expectativas comuns. A garota que quebrou os dentes de um guri da rua que a tratou mal, a moça que se negou a casar de véu e grinalda.

Que junto das suas amigas, nos tosquíssimos anos 1980 do conservador sul do Brasil, decidiu sair de casa justamente pra ver aquele filme, sobre aquelas mulheres que se unem contra um macho sexista escrotoide.

Eu, macho burro em formação, certamente nem me liguei, na época nem nos anos que se seguiram. Mas a comédia divertida daquelas três mulheres, com aquela canção sensacional na trilha sonora, era um grito, abafado mas estridente. Uma manifestação de sororidade, rebelião, união e feminismo que soube soprar a novidade constante, premente e precisa até aqui nos rincões de Curitiba.

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