Deus, Pátria, Família e mulheres como propina
Os escândalos envolvendo o Banco Master têm revelado muito mais do que relações financeiras suspeitas, circulação de dinheiro, proximidade com agentes públicos e uma rede de influência que ainda está sendo investigada.
Há uma dimensão dessa história que diz muito sobre a forma como o poder é construído e exercido no Brasil e que, como quase sempre acontece, atinge as mulheres de uma maneira muito particular.
Quando observamos as informações que vieram a público, chama atenção a diferença entre o lugar ocupado pelos homens e aquele reservado às mulheres.
Os homens aparecem negociando, articulando interesses, movimentando dinheiro, construindo relações políticas, fazendo negócios e disputando espaços de poder, enquanto as mulheres aparecem muitas vezes reduzidas a imagens, escolhidas a partir de fotografias, levadas a festas, hospedadas em hotéis e inseridas em uma lógica que parece tratá-las não como sujeitos, mas como parte da engrenagem de aproximação entre homens poderosos.
Esse talvez seja um dos aspectos mais reveladores de toda essa história, porque não se trata de discutir a vida privada de mulheres adultas, muito menos de reproduzir a velha moralidade que sempre encontra uma forma de julgá-las antes de qualquer outra coisa.
Não sabemos quais eram as condições concretas de cada uma delas, quais relações mantinham com os envolvidos ou quais escolhas fizeram, e nada disso muda a questão central, que é compreender por que homens que ocupam posições de poder continuam tratando mulheres como algo que pode ser selecionado, oferecido, transportado ou incorporado a uma estratégia de influência.
Em uma das conversas divulgadas pela imprensa, mulheres eram avaliadas a partir de fotografias, com comentários sobre aparência e preferência.
Em outra situação, ao ser questionado sobre a presença constante dessas mulheres, Daniel Vorcaro teria tratado aquilo como parte de seu “business”.
A palavra é especialmente simbólica porque expõe, de forma quase involuntária, uma estrutura que existe há séculos: a ideia de que mulheres podem integrar a lógica dos negócios, não necessariamente como agentes dessas negociações, mas como parte daquilo que circula entre os homens que possuem poder.
É evidente que isso não significa afirmar que cada uma dessas mulheres tenha sido usada da mesma forma ou que exista prova de crime em todas as situações mencionadas, mas significa reconhecer que existe uma cultura muito antiga em que corpos femininos são incorporados às relações masculinas de poder como símbolo de status, recompensa, acesso, entretenimento ou vantagem.
É também nesse ponto que a expressão “Deus, Pátria e Família” se torna impossível de ignorar.
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