Galípolo em Gallipoli
O Brasil parece ter transformado o combate à inflação numa guerra de desgaste contra a própria economia.
Em 5 de agosto, o Banco Central reduziu a Selic para 14% ao ano, no quarto corte consecutivo.
A direção finalmente mudou, mas o patamar continua extraordinário.
Depois de alcançar 15%, o país segue submetido a um custo do dinheiro capaz de alterar decisões empresariais, adiar investimentos, encarecer a dívida pública e premiar aplicações financeiras numa escala que deveria provocar uma discussão nacional muito mais dura sobre os limites da política monetária.
Gabriel Galípolo preside o Banco Central desde 1º de janeiro de 2025.
Antes disso, desde julho de 2023, comandava a Diretoria de Política Monetária.
Seu sobrenome produz uma associação histórica difícil de ignorar.
Gallipoli foi uma das campanhas mais desastrosas da Primeira Guerra Mundial.
O objetivo aliado parecia estrategicamente sedutor: atravessar os Dardanelos, pressionar Constantinopla, abrir uma rota marítima para a Rússia e retirar o Império Otomano da guerra.
Em fevereiro de 1915 começou a ofensiva naval; em abril vieram os desembarques.
O que deveria ser uma operação decisiva converteu-se em oito meses de trincheiras, impasse, sucessivas ofensivas e perdas gigantescas.
Em janeiro de 1916, os últimos soldados aliados deixaram a península.
O objetivo central jamais foi alcançado.
Os mortos daquela guerra merecem respeito absoluto e jamais podem ser convertidos em ornamento retórico.
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