Um projeto de Constituição para o bolsonarismo?
A proposta de Flávio Bolsonaro (PL) de usar a maioria no Congresso para mudar a Constituição deve ser enfrentada com oposição democrática vocal.
Ao prometer “redemocratizar esse país” , em Goiânia, em 6 de outubro, o candidato associou a força de seus aliados à transformação da ordem de 1988.
A fala não detalhou uma substituição integral da Carta.
Mas o horizonte de refundação que ela permite entrever exige uma resposta política: não se deve entregar a essa maioria o poder de redefinir os limites de sua atuação.
Conheça o JOTA PRO Poder, plataforma de monitoramento que oferece transparência e previsibilidade para empresas O problema começa no sentido de redemocratização.
A palavra pressupõe uma democracia ausente ou sequestrada, a ser restituída por quem promete recuperá-la.
Empregada por um candidato que celebra sua força parlamentar, produz uma tensão: as instituições são reconhecidas como legítimas para conferir poder, mas descritas como insuficientemente democráticas quando o limitam.
A eleição comprovaria a vontade popular; os freios ao eleito indicariam a resistência a essa vontade.
Nessa assimetria reside a ameaça.
Se a democracia passa a ser identificada com o projeto vencedor, toda instituição capaz de contrariá-lo pode ser tratada como uma deformação a corrigir.
A Constituição deixa de oferecer a linguagem comum do conflito e passa a ser julgada por sua disponibilidade para acomodar um dos lados.
Sua legitimidade torna-se condicional: vale enquanto permite governar sem contrariedades.
Nenhuma Constituição democrática exige imobilidade.
Reformar é necessário, mas a direção da mudança depende de quem a conduz.
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