Meu amigo Clemente (por Odylo Costa)
Deitado na rede do alpendre, tenho sob os olhos, através do campo aberto, a cidade de Campo Maior; e enquanto, de longe, vou adivinhando as vidas sob os telhados, ouço o amigo da adolescência.
Chama-se Clemente; e na verdade nunca houve, no mundo, Clemente como este.
Com um blusão aberto (que a meu ver adotou como uniforme diário porque, embora de linho, lhe recorda a camisa por fora das calças que os caboclos usam), ele não para um minuto, numa agitação sem termo que a própria rede não consegue quebrar.
Somos amigos há mais de vinte anos, tinha eu quatorze.
Juntos fizemos a habitual revista ginasiana, com clichês em madeira e muita ênfase.
Não tardou muito Clemente ia para Belém, onde teve uma paixão inconfessada e alucinatória pela poetisa local, que então era possível ao estudante desocupado contemplar, em repetidas idas e vindas pela frente da casa em cujo jardim Eneida em flor lia, envolta em pijamas de seda.
Eu caminhei para o Rio, onde minhas aventuras foram pobres e poucas.
Mais de dois lustres depois, quando voltei ao vale do Parnaíba, encontramo-nos de novo; éramos os mesmos amigos de sempre.
Agora, deitado na rede de tucum, ouço as história que Clemente me conta.
Com paixão.
Paixão que aliás não vai durar muito, se dissipa no primeiro impulso generoso.
Sempre o vi assim, desde o dia em que em nossa tentativa jornalística de 1929 pegou numa barra de ferro para matar o paginador que manchara uma das páginas mais belas da revista em forma de taça, imaginem! Meia hora depois estavam os dois, fraternos, tomando cerveja.
Na plenitude da vida e da ação, Clemente é hoje um dos homens típicos desta terra.
Teve, na sua fazenda, a chocadeira mais moderna, a mais moderna criadeira.
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